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Em discussões sobre inovação, a Transformação Digital é uma pauta sempre presente. É comum ouvir sobre cases de sucesso, métodos e modelos a serem seguidores e que, para que dê certo, ela deve vir de dentro das organizações, e não comprada. Mas, como saber se a sua empresa está culturalmente preparada para passar por essa transformação? Será que ela tem os talentos certas? Ou melhor, será que a cultura da região/estado no qual ela está inserida incentiva o processo de transformação?

Conversamos com a Lisiane Lemos, um dos grandes talentos brasileiros, especialista em transformação digital e que conquistou reconhecimentos como Forbes Under 30, conselheira da ONU e palestrante TEDx. Em uma troca leve e descontraída, ela compartilhou conosco seus aprendizados durante as passagens por grandes empresas de tecnologia, sua visão sobre o potencial de transformação digital nas empresas do Rio Grande do Sul e uma perspectiva sobre como evoluir o nosso ecossistema de inovação para ser mais atrativo e plural.

Em 2017, você foi considerada uma Forbes Under 30 e sua trajetória profissional conta com empresas referências de tecnologia. Você pode contar um pouco da sua trajetória? Como especialista em Transformação Digital, quais foram os seus maiores aprendizados nessa jornada de cultura e como você a evolução das empresas gaúchas neste contexto de transformação?

Minha trajetória começou no ambiente escolar. Sou filha e neta de professoras, sempre fui chamada a participar ativamente dos eventos com elas. Em 2003, como parte da implementação da lei 10.639, estive com minha mãe em atividades relacionadas a história afro brasileira e hoje tenho maturidade para entender que uma chama se acendeu naquele época.

Sempre tive o sonho era ser professora universitária e, quando entrei na universidade, me apaixonei por Educação em Direitos Humanos. Hoje enxergo que tecnologia nunca foi um fim na minha vida, somente um meio de me conectar com as outras pessoas e atingir meus objetivos. Foi entendendo o potencial dela que me apliquei para uma posição na AIESEC Moçambique e consegui me conectar com outros diretores na organização. No final da faculdade tive contato com o ambiente corporativo, especificamente na área de vendas. Essa interação rapidamente despertou meu gosto pelo ambiente de negócios e comecei a evoluir uma visão de que almejava trabalhar na área de vendas de multinacional sediada em São Paulo. Foi com base nesse desejo que parei na Microsoft. É incrível, nem nos meus sonhos mais ousados eu imaginava trabalhar lá.

Durante toda essa trajetória dentro da Microsoft, um dos meus principais aprendizados consiste de que a transformação digital tem início no comportamento humano. Atendendo a inúmeros clientes nos últimos anos, percebi que os projetos mais bem sucedidos iniciavam ouvindo as dores dos consumidores e pensando como que a tecnologia poderia saná-las. As piores práticas estavam em empresas que entendiam que criando um aplicativo – nem sei quantas vezes já ouvi isso – o problema estaria resolvido.

Eu tive a oportunidade de atender diversas empresas gaúchas, de diferentes portes e em diferentes setores. Vejo uma evolução no entendimento delas sobre a necessidade de ser digital first, mas uma trava ainda quanto a correr riscos. Inovar é correr risco, mesmo que controlado, planejado e pensado. Existe uma oportunidade enorme das empresas gaúchas se transformarem culturalmente e consequentemente digitalmente, seja trazendo pessoas jovens e/ou diversas para as posições de liderança, assim como aprendendo com empresas de segmento semelhante em outros estados que já trilharam este caminho.

O Rio Grande do Sul é um estado que historicamente forma um número incrível de jovens talentos. Em contrapartida, infelizmente, ainda não os retém. Quais elementos você identificou na sua experiência nessas empresa que deveriam ser absorvidos pelos nossos gestores? O que é preciso para construir um ambiente atrativo, inovador e plural?

No meu caso, dois principais fatores me fizeram sair do Rio Grande do Sul. O primeiro, foi que nas minhas idas a São Paulo para trabalhar com empresas que lá estavam sediadas, eu entendi que grande parte das matrizes se encontra nas capitais paulistas . 2) Existe um mantra que eu repito: a gente só sonha com o que a gente vê. Se você abrir os portais de carreira das maiores empresas gaúchas, verá poucas mulheres, poucos negros, poucos jovens. Ainda que eu tenha um espírito pioneiro, naquele momento eu não tinha consciência plena de que poderia modificar o ecossistema gaúcho com um todo. Entendo também que em São Paulo há uma oportunidade maior para networking e a criação de laboratórios de inovação.

Quais dicas você daria para os jovens que estão entrando no mercado de trabalho e buscam tornar-se competitivos? Como buscar equilíbrio entre skills técnicos e comportamentais? 

A minha carreira é a prova de que o conhecimento técnico você aprende com o tempo, mas as habilidades comportamentais são as mais desafiadoras. O voluntariado foi o meu ambiente para desenvolvimento de habilidades de gestão de pessoas, financeira e preocupações jurídicas, de modo que, com 23 anos, eu já havia passado por diversos ambientes com diferentes responsabilidades e percebi que minha fortaleza estava no conhecimento plural que eu adquiri. Há um medo natural do jovem que não viveu no exterior de não ser atrativo ou bom o suficiente. Eu discordo completamente disso. Todo mundo tem algo a contar, agregar e somar. Com frequência eu faço o seguinte exercício: liste os líderes que você admira e as causas que os levaram a admirá-los. Depois, reflita sobre situações do dia a dia que você pode exercitar os mesmos comportamentos dos líderes que admira e, aos poucos, mensure sua evolução. Nesta semana, curiosamente, tive uma sessão com um headhunter que trouxe uma visão que considerei incrível para os jovens talentos terem em mente: o profissional ideal para determinada função é o que soma Cargo + Responsabilidades + Realizações.

De que forma você acredita que iniciativas como o Instituto Caldeira podem contribuir para retenção de talentos e construção de um ambiente mais atrativo e plural? 

Me convidando pra falar haha! Brincadeira… mas focando na pergunta, acredito que temos oportunidade em: 1) construir essa nova liderança digital – permitindo com que talentos locais possam falar da sua experiência e dividir conhecimento 2) apresentando novos atores, ampliando o networking das pessoas. O digital nos trouxe uma oportunidade incrível de conhecer e trabalhar outros lugares 3) Falando com transparência dos problemas que temos: ainda que 20% da população gaúcha (aproximadamente) seja negra, não enxergamos pessoas negras e mulheres em posições de liderança no mundo de tecnologia. Enquanto diversos atores não estiverem na mesma mesa tomando decisões e construindo conhecimentos, seguiremos em um crescimento ok, mas não exponencial.

Quais são as fontes de conteúdos – livros, revistas, sites, podcasts – que você indicaria para quem busca essa competitividade no mercado de trabalho?

Nossa senhora, é muita coisa. Como eu tenho uma vida de palestrante, gerente de negócios e fundadora de um projeto digital, várias coisas me trazem a base literária para conseguir executar tudo isso. Vou indicar o que tem no meu escritório de São Paulo (o cafoffice 1.0 – se você me segue nas redes sociais):

Os livros The future is faster than you Think, Ubuntu – A transformação através das ações afirmativas e A caixa preta da governança. Sobre revistas, estou apaixonada pela MIT Sloan Review Brasil, que foi meu parceiro em um evento recente, o Frontiers Unlocked.