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A Lojas Renner é um dos grandes orgulhos de nosso Estado. E José Galló é diretamente responsável por essa jornada de sucesso.

Após 20 anos a frente do negócio, atualmente é Presidente do Conselho de Administração. A partir da sua liderança, a companhia desenvolveu aquilo que foi uma das marcas mais importantes de sua gestão: a simplicidade.

Sua incansável busca pelo “simples”, baseou-se em duas “máximas”, conforme ele mesmo cita em seu livro “O Poder do Encantamento”:

1. É muito mais difícil ser simples do que ser complexo.

2. Foco não é o que você tem que fazer; é o que você tem que deixar de fazer.

Em um mundo empresarial cada vez mais inundado por “novas metodologias revolucionárias”, diferentes “ferramentas transformadoras” e conceitos repletos de termos em inglês, ouvi-lo pode ser um excepcional guia sobre o que efetivamente é relevante para o atual contexto.

Entusiasta de um Rio Grande do Sul mais empreendedor e pujante, Galló é fundador e conselheiro do Instituto Caldeira. Uma das mentes mais inquietas que nosso Estado já conheceu, empresta seu tempo e seu conhecimento para provocar reflexões a todos aqueles que são guiados pelo propósito da inovação.

Em um ambiente de alta complexidade, por que a simplicidade se tornou um valor inegociável?

“Eu prefiro definir como um ambiente de alta velocidade. Talvez estejamos confundindo a alta velocidade com alta complexidade, porque de fato são muitas coisas acontecendo rapidamente e simultaneamente. Saímos de uma vida linear para uma vida exponencial, mas as boas soluções continuam sendo simples.

Se as empresas querem ser rápidas e, ao mesmo tempo, são complexas, elas não vão conseguir. No fundo, as propostas de valor vencedoras e os diferenciais competitivos, tem características inovadoras, mas são simples.

Em virtude da educação que muito de nós tivemos, principalmente aqueles com mais idade, sempre acreditamos que as coisas para darem certo precisariam ser complexas, longas e pesadas.

O novo mundo mostra que não é bem assim. É um novo mundo formato por pessoas que não querem nos dar uma solução completa já no seu início. As startups estão aqui para nos dar uma grande lição.

As grandes empresas precisam absorver o jeito das startups.

Elas estão trazendo uma nova visão de fazer as coisas de uma forma mais rápida, não necessariamente criando um produto ou serviço perfeito desde o início. Optam por um mínimo produto viável, se mantém próximas do cliente, vão aperfeiçoando, ajustando até atingir escala e produtos ou serviços competitivos. Aceitam o erro como incentivo para melhorar.

É o ciclo construir, medir, aprender.

Algumas empresas mais tradicionais não estão próximas do consumidor. Elas completam o projeto inteiro e, somente após finalizado, se aproximam dele. Isso é um desastre.”

A primeira lei da simplicidade refere-se a confiar mais e controlar menos. De que maneira você acredita que a confiança reflete numa cultura de inovação?

“Sem dúvidas, as empresas têm muitos relatórios, mas o grande desafio é identificar se são relatórios de gestão ou relatórios de desconfiança. Quando digo que relatórios de gestão bastam, estou dizendo que o básico de um negócio é você confiar nas pessoas. Muitas vezes a gente tende a desconfiar delas e constrói complexidade de controle.

Eu, particularmente, sempre gostei muito de confiar nas pessoas e tive pouquíssimas desilusões, diga-se de passagem. Sempre procurei confiar e dar oportunidades às pessoas e fazer com que elas usassem seu potencial. Sempre deu muito certo.”

São pessoas que materializam ideias. Nada se faz sem pessoas.

Quais skills você entende como imprescindíveis para as lideranças nos dias de hoje? Como equilibrar diversidade de ideias com unidade de valores em um processo de inovação?

“Acho fascinante darmos oportunidade para que as pessoas participem do processo de inovação e contribuam com suas ideias. Muitas vezes os líderes acham que a sua é a melhor ideia e que são donos da verdade. Não compartilho disso.

Eu prefiro ter a minha ideia e, com muita humildade e muita calma, submeter minha ideia a um grupo de pessoas e estar aberto para que elas a enriqueçam. A experiência tem me mostrado que sempre que eu entrei com uma proposta ou com uma ideia e as submeti para um grupo de pessoas, após a discussão, eu saí com uma ideia muito mais consistente e muito mais inovadora.

Isso porque as pessoas possuem pensamentos diferentes e há a possibilidade de a gente acreditar que vários pontos de visto constroem as melhores ideias.

Cabe ao líder dar oportunidade para que sua equipe participe. Quando se consegue isso de forma genuína e verdadeira, ela vai fazer o possível e o impossível para tornar essa ideia uma realidade. Isto, para a execução dessa ideia.”

Como instituições como o Caldeira podem contribuir para um RS mais aberto a inovação?

“Se nós avaliarmos o Rio Grande do Sul que éramos há 15 ou 20 anos atrás, ou seja, a nossa representatividade em relação ao Brasil, nós veremos uma diferença significativa.

Isso porque os demais estados vêm avançando do o ponto de vista de geração de negócios, atração de empresas e, agravado, pelo fato de estarmos perdendo nossos cérebros.

Se nós estamos assim, significa que temos líderes que precisam mudar seu mindset.

A única forma de conseguirmos uma reação a isso tudo, é nos unirmos e, concretamente, tornarmos o RS um estado de alta inovação. Quando os fundadores aceitaram criar o Instituto Caldeira*, por exemplo, esse foi o grande motivo para que isso acontecesse.

Nós temos pessoas e empresas inovadoras no Estado, mas temos que ajudar aqueles que estão começando sua carreira a que construam também uma mentalidade de inovação.

Claro, não apenas somente uma mentalidade, mas que também coloquem a inovação em prática. Também ajudar que pequenas e médias empresas se tornem mais produtivas, inovadoras, competitivas, usando tecnologia e meios digitais.

Somente assim conseguiremos retomar o nível de crescimento, de novos negócios e de novas ideias.”