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O mundo aguarda com ansiedade a chegada do 5G, a tecnologia que vai potencializar novos modelos de negócios, provocar mudanças no cenário competitivo mundial e cujo potencial financeiro, em vários segmentos econômicos, deve chegar a US$ 13,2 trilhões até 2035, segundo estudo da IHS Markit. 

“Com o 5G, os serviços digitais serão menos impactados pelas distâncias globais e isso vai gerar um incentivo à inovação. Não somente o Brasil, mas os países da América Latina poderão encontrar oceanos azuis e se inserirem na economia global com novos serviços”, projeta o diretor da Accenture, especialista em Telecomunicações e 5G, Paulo Tavares. 

E esse não deve ser apenas um jogo de gigantes. Há espaço, sim, para as startups. “Esse cenário competitivo proposto pelo 5G através da disrupção dos modelos de negócio atuais abre espaço para startups não somente competirem com fornecedores tradicionais de redes de telecom, mas também para ocuparem novos espaços nas soluções para serviços e aplicações aos consumidores finais”, projeta o especialista. 

Instituto Caldeira – O quanto o cenário da pandemia evidenciou a necessidade de evoluímos na direção de uma melhor conectividade de forma a garantirmos a digitalização de forma plena?

Paulo Tavares – Após um ano atípico e de muitas incertezas, é certo que as condições de restrição de acesso ao trabalho no modelo tradicional aceleraram fortemente a adoção de soluções digitais. Diante desse cenário, se houvesse uma aposta única a ser feita para investimentos, naturalmente seria a de intensificar a infraestrutura que suporta o processo de digitalização dos serviços.

Já observamos, nos países onde o 5G já se torna uma realidade, a potencialização de serviços digitais através dessa tecnologia. Acreditamos que o Brasil, a partir da concretização do leilão e da evolução da construção da infraestrutura necessária ao 5G, colherá também benefícios significativos.

Instituto CaldeiraQuais os desafios para as operadoras com esse leilão e na construção da infraestrutura?

Tavares – As operadoras no Brasil têm pela frente o desafio de altos investimentos necessários para participar de um processo de licitação de várias faixas de frequência de uma só vez, seguido da necessidade de implantar uma arquitetura nova e disruptiva para prover as capacidades esperadas do 5G. Além disso, também temos que considerar o custo para manter e atualizar essa infraestrutura por longos anos, ressaltando que temos infraestrutura de 2G ainda presente e ativa desde 1990 em cobertura nacional.

O ponto crítico pré-leilão para quem irá desbravar o 5G é ser bastante assertivo no desenvolvimento de uma estratégia vencedora em termos de negócio e parcerias, do entendimento de quais casos de uso devem ser explorados pelas operadoras e pelo novo ecossistema formado por novos players e novas parceiras.

É sempre relevante lembrar que o 5G, de forma muito mais ampla que as tecnologias anteriores, abre um novo ecossistema de fornecedores e parceiros para as operadoras, indo muito além das oportunidades e funcionalidades de fornecedores de redes e serviços atuais.

O mundo avalia a tecnologia 5G com expectativa de grande potencial financeiro em vários segmentos econômicos – soma que chega a US$ 13,2 trilhões até 2035, segundo estudo da IHS Markit. Isso porque, essa tecnologia permite a evolução ou criação de novos serviços e produtos disruptivos enquanto impulsiona a maior digitalização dos processos e das empresas. 

Instituto Caldeira – Quando o mercado começará a se beneficiar efetivamente do 5G?

Tavares – O ritmo de implantação de redes 5G varia bastante entre países e regiões no mundo. Esse ritmo é ditado pela prontidão das operadoras e países com base em fatores como disponibilização de espectro de rede, situação da rede das operadoras (estágio de habilitadores como virtualização, fibra, edge-computing etc.), evolução no modelo de negócios com base em provas de conceito técnicas e comerciais, políticas governamentais de incentivo à ampliação da infraestrutura, entre outras. Para a evolução das soluções suportadas pelas redes 5G, também é importante levar em consideração a necessidade de redução do preço dos dispositivos, como os novos smartphones e sensores de Internet das Coisas  (IoT), para viabilizar casos de usos diversos.

O Brasil, que iniciou a evolução para o 5G através da tecnologia DSS, aproveitando os espectros de frequência já disponíveis, deverá ver de fato os benefícios reais do 5G a partir das características de altíssima velocidade, baixíssima latência e hiperconectividade (massive IoT) somente após a conclusão das primeiras ativações de sites 5G com as novas frequências e com suas arquiteturas de rede prontas para suportar os novos casos de usos, algo que provavelmente não veremos antes de 2022 em sua plenitude.

Instituto Caldeira – Quais as verticais de mercado estão melhor preparadas para sair na frente e começar a se beneficiar desta tecnologia nos seus negócios? 

Tavares – O 5G abre oportunidades para inovação e digitalização do processo produtivo em vários setores da economia e pode ocasionar mudanças no quadro competitivo mundial.

O Brasil deve perseguir o avanço gerado por essa onda disruptiva para não perder seu espaço na economia mundial. Ou seja, nesse contexto, é importante incentivar os setores fortes, além de buscar oportunidades de novos espaços.

Uma vez que o 5G é a grande ferramenta para a Indústria 4.0, a resposta para quais verticais estariam mais preparadas é a análise do estágio do processo de digitalização que essas verticais se encontram. Em outras palavras, as verticais de mercado que se anteciparam no processo de digitalização, sejam de produção de commodities, indústria de bens de consumo, dentre outras, devem aproveitar os “saltos” de modernização de forma mais rápida e eficiente. Globalmente, nos mercados onde o 5G já começa a ser tornar realidade, vemos como principais potenciais de retorno os casos de usos associados à serviços de dispositivos conectados para consumidores (Consumer IoT), seguido por serviços de dispositivos conectados para a indústria (Industrial IoT) e serviços de altíssimas velocidades móveis (Enhanced Mobile Broadband).

A mensagem principal é que, com o 5G, os serviços digitais são menos impactados pelas distâncias globais e isso vai gerar um incentivo à inovação. Não somente o Brasil, mas os países da América Latina poderão encontrar oceanos azuis e se inserirem na economia global com novos serviços.

Instituto Caldeira – O que torna o 5G uma tecnologia tão diferenciada, e não uma simples evolução do 4G? 

Tavares – O grande diferencial que o 5G traz, em comparação às gerações anteriores, é um conjunto de características técnicas cujos benefícios podem ser monetizados e que vão além de maior velocidade de dados no dispositivo móvel. Especificamente, falamos da maior capacidade de conexão entre dispositivos (1000x mais dispositivos conectados em 1 Km2) e o tempo de resposta (latência) se aproximando cada vez mais do tempo real (de 100ms para menos de 1 ms). Isso abre um horizonte de possibilidades para vários segmentos produtivos, como indústria, agricultura, serviços, bem como setores de suporte a toda a cadeia. 

As fábricas, por exemplo, poderão aumentar sua produção por meio de análises avançadas, com o uso de Inteligência Artificial (IA), a partir de informações coletadas em tempo real de dispositivos implantados em toda a linha de produção. A agricultura, que já havia encerrado 2019 sendo responsável por 21,4% do PIB brasileiro, poderá ter um conjunto de novas ferramentas para controles e análises a partir de informações coletadas via múltiplos dispositivos com imagens 4k, como sensores de umidade, temperatura, clima, controle em tempo real de defensivos agrícolas, dentre outros. Outro beneficio é a maior capacidade de roteirização e acompanhamento no transporte de mercadorias.

Instituto Caldeira – Há espaço para as startups no mundo 5G? 

Tavares – Sem dúvida. Um dos paradigmas chave a ser ultrapassado no modelo de implantação do 5G é o entendimento de que é necessário um novo ecossistema para viabilizar a captura dos benefícios trazidos pelo 5G com uma distribuição de investimento por toda a cadeia, e não somente majoritariamente por parte das operadoras como o modelo atual.

Como o 5G trará novas possibilidades de receita a partir de novos casos de uso, as operadoras deverão abrir espaço para que as startups possam explorar esses serviços baseados em Inteligência Artificial/Machine Learning, Big Data, bem como trazer modelos de parceria disruptivos e que permitam sua inserção na cadeia de valor desse ecossistema formado por fornecedores, integradores, indústrias, distribuidores e consumidores.

É importante lembrar que um dos avanços fundamentais na arquitetura e tecnologia do 5G é a evolução de uma rede baseada em hardware para uma rede baseada em software, o que abre um oceano de possibilidades para novos players de software em um mercado já bastante explorado pelas startups.

Alguns exemplos de oportunidades exploradas por startups atualmente nos países que já estão mais avançados no lançamento do 5G são o desenvolvimento de plataformas para veículos autônomos, com sistemas de sensores remotos usando cognição, processamento avançado de imagens e IA para leitura em tempo real dos ambientes. Outra possibilidade é explorar as soluções de inspeção de ativos, agricultura de precisão, respostas de emergência, defesa e comunicações. Sem falar nos sistemas de gestão de casas inteligentes com funcionalidades não somente para aumentar a interação dos proprietários com suas casas, mas também para geração de insights para o mercado imobiliário entender como aumentar as receitas a partir de aluguel. 

Esse cenário competitivo proposto pelo 5G através da disrupção dos modelos de negócio atuais abre espaço para startups não somente competirem com fornecedores tradicionais de redes de telecom, mas também para ocuparem novos espaços nas soluções para serviços e aplicações aos consumidores finais.