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Há uma supervalorização das avaliações das startups no Brasil. Na segunda edição do Go Global Caldeira, Ricardo Geromel, sócio da 3G Radar e embaixador internacional do Instituto Caldeira, conversou com Jeff Weinstein, co-head da FJ Labs, empresa especializada em investimento semente do Vale do Silício. O norte-americano compartilhou suas percepções e preocupações sobre o cenário tech no mundo e no Brasil. 

Francamente, é um momento muito emocionante e, ao mesmo tempo, assustador de investir no Brasil. As valuations das startups (quanto valem) estão desconectadas da realidade”, aponta Weinstein.

A FJ participou de vários ciclos de investimento no País. Um deles foi abocanhado pela Nuvem Shop, que oferece estrutura de e-commerce para mais de 80 mil pequenos negócios. Em 2011, a valuation era de US$ 500 mil e, recentemente, passou para US$ 500 milhões. 

“Isso mostra como o mercado estava antes e como está agora”, destaca. Segundo o empreendedor, a Tiger Global (gigante do setor de investimentos) fecha negócios toda semana no Brasil. “Eles atuaram por aí em 2015, 2016, e depois saíram. Agora voltaram, e não parece que muita coisa mudou. Acho que muitos riscos continuam”, alertou. 

A pandemia, conforme Weinstein, ampliou as possibilidades e aproximou o mundo dos talentos brasileiros, que estão sendo contratados em peso por startups dos Estados Unidos. O investidor percebe que isso ajuda todo o ecossistema.

O Vale do Silício é o Vale do Silício por causa do efeito networking. Cada negócio de sucesso gera 15 outros. No Brasil, se vê as sementes do ecossistema nascendo e estou empolgado com o futuro”, celebrou, ressaltando que há muito capital disponível atualmente para empresas de todos os lugares do planeta. 

O que a FJ Labs procura 

A FJ Labs foca em marketplaces. Dos 700 investimentos feitos até hoje, 500 foram no setor. A empresa investe em 150 startups por ano. Muitas das decisões ocorrem em uma ligação por telefone, segundo o co-head Jeff Weinstein. “Olhamos para quatro coisas: time, negócio, valuation e se se encaixa em marketplace”, expõe. 

Weinstein vê a verticalização como uma forte tendência no segmento. De acordo com ele, a versão 1.0 dos marketplaces, como Mercado Livre, eBay e Amazon, apostava no conceito horizontal, de multi categoria. “Acreditamos numa experiência melhor se você escolher categorias específicas. Por exemplo, se usar Airbnb em vez da OLX para reservar uma estadia, você pode adicionar tours virtuais, seguro viagem, etc. Há centenas de marketplaces a serem construídos de categorias independentes”, revelou.

Uma das promessas, para Weinstein, é o setor B2B, que teria sido deixado para trás, enquanto o B2C alçou voos altos. “Há oportunidades de aplicar as práticas do B2C na indústria antiga. Fizemos, por exemplo, um investimento em uma empresa no Brasil chamada Oico, um marketplace de materiais de construção on demand. Se você precisar de mais madeira na obra, o Oico entrega”, cita. 

De investidor a dono

Outra startup brasileira que recebeu investimento da FJ Labs foi a Viajanet. A marca, inclusive, foi absorvida pela empresa norte-americana durante a pandemia, algo raro de acontecer. 

O negócio era lucrativo e crescia muito. Da noite para o dia, porém, com a chegada do coronavírus, o custo fixo não foi embora e a receita se aproximou de zero.

“Tínhamos uma decisão rápida a fazer. Listamos algumas perguntas. Acreditamos que o turismo voltará? Quando? Eu achava que voltaria em um ou dois anos, quando o cenário da concorrência estaria menos ocupado, devido às falências. Pegamos ownership e resgatamos o negócio. Se as viagens voltarem, ganharemos. Se não, ok. Obviamente, está demorando mais do que esperávamos por causa da Delta, mas ainda estou otimista”, afirmou Weinstein.

Como solucionar a falta de talentos        

A falta de talentos de profissionais de TI não é um problema apenas do Brasil. Weinstein conta que nos Estados Unidos também há uma demanda infinita por pessoas capacitadas. Uma das soluções criadas foi a escola lambdaschool.com, que oferece formação on-line gratuita na área e recebe uma porcentagem do salário do aluno quando ele consegue seu primeiro emprego.