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O Google o chama de The Garage. A IBM, de IBM Research. Já a Magazine Luiza, de LuizaLabs. A Visa, de One Market Center. O que estas iniciativas têm em comum?

Estamos falando de ambientes mais conhecidos como “laboratórios de inovação”. Isto é, as grandes corporações citadas acima acreditam e investem em estruturas externas às suas operações, com o intuito de promover uma revisão constante dos seus modelos de negócios e suas formas de gestão.

Trata-se de ambientes criativos e colaborativos que buscam oportunidades de inovação, tanto nos serviços e produtos oferecidos pelas empresas, quanto nos seus processos. O objetivo é promover um ambiente de grande provocação, que promova constantes melhorias no contexto no qual as empresas estão inseridas.

A Bergamotta Works, laboratório de inovação da Grendene, é um dos grandes exemplos de instituições gaúchas que apostam nessa mesma lógica, para implementar uma cultura de inovação dentro dos seus negócios.

Fundada em 1971, com mais de 24 mil funcionários, 11 plantas industriais e dona das marcas Grendha, Melissa, Ipanema, Rider, Zaxy, Cartago, Pega Forte e Zizou, a Grendene adotou recentemente, em 2019, o modelo de inovação em um ambiente criativo e que vem ocupando seu espaço dentro do grupo, já com ótimas perspectivas.

Conversamos com Arturo Garziera, Head de Inovação da Bergamotta Works e grande parceiro do Instituto Caldeira, para entender mais sobre o modelo que vem sendo adotado, suas perspectivas e seus desafios.

A Bergamotta Works é um “laboratório de inovação”. Como você definiria esse conceito? E como ele funciona na prática?

Na minha visão, um laboratório de inovação existe para promover um movimento de transformação no ecossistema de uma empresa, focando em ações que, na maioria dos casos, não conseguiriam ser realizadas no fluxo natural do dia-a-dia da organização. Estas transformações podem ter várias naturezas, sejam elas culturais, comportamentais, desenvolvimento de novos negócios, novos mercados, e assim por diante.

O Bergamotta Works é o laboratório de Inovação da Grendene. Em resumo, o Bergamotta tem foco em criar e testar soluções inovadoras que aproximem pessoas e negócios de forma sustentável.

A gente visa promover a transformação do ecossistema de negócios da Grendene através de MVPs, com foco em possibilitar o aumento do acesso às pessoas, potencializando o relacionamento e um consumo sustentável. Buscamos essa transformação trabalhando tanto com o portfolio de marcas atual da empresa, como no desenvolvimento de novos negócios.

Quais os principais desafios para construção de uma cultura de inovação dentro de grandes corporações?

Entendo que o ponto mais importante é que as ações inovadoras não sejam isoladas, e sim, parte de um grande movimento, de uma grande onda de inovação.

No caso da Grendene, vejo o início deste movimento de forma muito completa, genuína e robusta. O que quero dizer é que não adianta existir apenas o Bergamotta – laboratório de inovação – mas sim, todo um movimento que, no nosso caso, possui uma trilha de desenvolvimento que contempla: novas práticas de gestão, metodologia ágil, conceitos de design estratégico e uma visão mais plural de mundo, de diversidade.

É necessário uma série de esforços combinados que, em conjunto, viabilizam esta transformação na organização como um todo.

Esse processo é vivo e estamos ainda no começo, tem muitas coisas para acontecer e avançar, mas já temos sinais de que olhar o tema de forma ampla, sistêmica e verdadeira é o que faz acontecer de verdade.

Quais são os skills de um time completo para um laboratório de inovação?

Essa pergunta é uma difícil, pois depende muito do contexto de cada laboratório, isto é, dos objetivos e dos desafios existentes na organização em que o lab está inserido.

Mas existem alguns skills que são essenciais para a composição de um time, como a curiosidade, o interesse genuíno de “abraçar” o novo, ser livre de preconceitos, estar aberto, saber lidar com os erros, ter habilidade em estabelecer prioridades, coragem e, principalmente, gostar de fazer, isto é, colocar a mão na massa.

Existem indicadores de mensuração para inovação? Como o trabalho de vocês costuma ser avaliado?

Acho importante que sejam indicadores de negócios e não necessariamente de inovação.

O que quero dizer é que os indicadores precisam demonstrar se o MVP, isto é, se o projeto está no caminho correto, se aproximando das validações que ele precisa fazer e obtendo as respostas que ele precisa para tracionar ou não.

Ou seja, são indicadores que abordam desde questões como geração de receita, volume e fluxo, até diferentes tipos de análises como, por exemplo, o grau de sustentabilidade e de acessibilidade de cada projeto.

Nós estipulamos uma metodologia de priorização de projetos que visa o valor do mesmo para o negócio, para o consumidor, e considerando também o grau de inovação e esforço para execução do MVP. Como os projetos tangem muitas esferas, muitos pontos de contato, os indicadores precisam dar vários tipos de respostas, variando de projeto em projeto, conforme o que queremos investigar e validar.

De que forma iniciativas como o Instituto Caldeira podem impactar nesse contexto de inovação?

O Caldeira será incrível para todos nós, para Porto Alegre. Precisamos cada vez mais de espaços contemporâneos, abertos, inovadores.

Tenho certeza de que todos nós iremos aprender muito com o ecossistema que está sendo desenvolvido pelo Instituto.

Confesso que estou ansioso para que a gente passe por esta pandemia e consiga efetivamente viver o Caldeira e todos os aprendizados e oportunidades que ele vai gerar.

Também torço muito por conexões globais e culturais. que poderão ser feitas através da iniciativa. Vejo um grande potencial nele como hub de negócios, inovação, educação e cultura.

Quais livros você recomenda sobre o assunto?

Como acabei de concluir meu mestrado em design estratégico, gostaria de indicar alguns autores desta área, como Manzini e Verganti. São ótimos autores para refletirmos sobre inovação em uma escala que vá além apenas dos negócios, e sim, transformações sistêmicas, amplas, coletivas e com diversos impactos. Vale muito a leitura de ambos os autores.

“Design, quando todos fazem design” de Ezio Manzini

“Overcrowded” do Roberto Verganti