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Por que a sua empresa existe? Há algum outro motivo que não seja ganhar mercado, se tornar líder ou proporcionar dividendos para os sócios? O tema da criação de negócios capazes de gerar um impacto real para a sociedade ainda engatinha no Brasil, mas questões como essas precisam começar a ser feitas pelos líderes que desejam ver as suas operações, de fato, se transformando a partir de uma lógica mais moderna do mercado.

Ainda criamos essas sistemáticas sociais de que para a organização dar certo precisa competir, destruir e eliminar. Isso acontece há décadas, e está se reproduzindo agora nas novas gerações de empreendedores”, alerta Fausto Vanin.

Ele é empreendedor e cofundador da OnePercent, da Pox e da Koodu, um negócio digital formado por pessoas pretas e periféricas e que segue a lógica de gerar impacto e também ganhar dinheiro. “É uma falácia pensar que ou a gente gera impacto ou gera receita. Isso não existe. Não preciso seguir destruindo a natureza ou a sociedade para a minha empresa existir”, acrescenta. 

Esse cenário é resultado de um contexto socioeconômico em que as visões de sucesso sempre foram muito orientadas ao processo de colonização e dominação. Assim, a organização bem-sucedida ainda é vista como aquela que consegue eliminar os concorrentes para, desta forma, construir verdadeiros impérios. Uma visão que não combina em nada com a cultura da colaboração, tão difundida hoje em dia. 

“Os ambientes corporativos ainda são extremamente orientados ao pragmatismo dos números e dos resultados. Mas, a lógica dos ecossistemas, que temos falado tanto nos últimos tempos, não se relaciona com essa percepção de superação dos concorrentes”, observa Vanin. 

Gerar impacto passa, necessariamente, por ampliar a diversidade. É um novo propósito a ser perseguido, sugere o especialista.

“Essa é uma pauta urgente. Mais de 70% da população pobre no Brasil é preta. É um cenário que vivemos há 520 anos. O período de escravização dos povos de origem africana acabou, mas nada acontece a não ser o crescimento das desigualdades”, lamenta.

Nos últimos anos, diante das provocações do mercado e da descoberta de que existem outros caminhos a serem trilhados, as corporações começaram a ser mais proativas. Mas, escolhem caminhos diferentes, o que gera uma dicotomia no mercado. 

Uma parte delas percebe essa tendência e aposta em estratégias de marketing e na criação de ações com essa temática para gerar engajamento com os consumidores. Porém, segue com a mesma ética da dominância sociocultural. Outras fazem, de fato, a coisa certa. São organizações que pensam na diversidade naturalmente, que tem uma orientação mais humanitária e tratam o tema da geração de impacto como prioridade pela alta direção. 

“Tem muita gente advogando sobre esse tema da diversidade com essência, são organizações que realmente inspiram novas atitudes. Entretanto, tem uma parte que apenas veste a roupa do propósito e usa a questão de diversidade para criar contextos para os seus produtos e para se posicionar bem no mercado. Aí fica realmente difícil ver quem é quem nesse cenário”, admite. 

Vanin sugere que os líderes pensem quais ações práticas estão sendo feitas para promover a diversidade e eliminar a desigualdade na sua companhia a cada dia. Não é preciso criar programas sofisticados. “Se a gente conseguir pagar um vale transporte a mais para um colaborador da periferia, isso pode ajudar a mudar a vida dele. Ainda estamos na base, é muito simples fazer algo hoje para conseguirmos gerar impacto”, reforça. 

O empreendedor tem acompanhado as iniciativas que estão acontecendo em Porto Alegre e no Rio Grande do Sul, dentro da lógica de criação de uma nova cultura de inovação e colaboração. E vê algumas mudanças importantes. 

“Percebo uma real evolução dessa mentalidade. O trabalho de articulação de pessoas na direção de um mesmo objetivo é desgastante e exige tempo, mas temos que reconhecer que tem muita gente aqui buscando formar parcerias e alianças reais. Ainda é pouco, mas já é muito importante”, conclui.

Perfil: Fausto Vanin atua em diversas iniciativas que usam a tecnologia para ajudar a mudar a vida das pessoas. Possui mestrado em Informática Aplicada e certificação em Inovação e Estratégia pelo MIT Sloan School of Management. Além da Koodu, lidera a OnePercent, coletivo que desenvolve soluções de software com a tecnologia Blockchain, e o Pox, que é uma plataforma de aprendizagem interativa. É membro da diretoria voluntária da Aldeia da Fraternidade, Fellow do Social Good Brasil e consultor de negócios na Odabá, a associação de afroempreendedores do Rio Grande do Sul.