
“Uma das características da espécie humana é a inovação tecnológica”, afirma Pedro Garcia
A inteligência artificial deixou de ser promessa futurista para se tornar uma presença cotidiana e, para muitos, inquietante. Entre o fascínio e o medo, cresce a sensação de que algo fundamental está mudando na forma como as pessoas criam, imaginam e se expressam. Para o artista visual Pedro Garcia, porém, a IA não representa o fim da criatividade humana, mas um ponto de inflexão histórico capaz de ampliar radicalmente a imaginação.
Segundo ele, a ansiedade em torno da tecnologia não é nova. “Os medos com a IA vão desde a gente se viciar, a gente desaprender, até a destruição do mundo”, afirma. Ainda assim Garcia defende que a inovação tecnológica sempre acompanhou a humanidade.
Uma das características da espécie humana é a inovação tecnológica. A gente está só continuando nessa linha histórica e evolutiva.
Para explicar o momento atual, o artista traça paralelos com outras rupturas da história. Um dos exemplos é o surgimento da fotografia. Antes dela, a arte ocidental estava centrada em reproduzir fielmente a realidade. “Quando surge a fotografia, essa realidade passa a ser possível de ser reproduzida imediatamente, sem esforço”, lembra. O impacto foi profundo: pinturas perderam valor comercial e, em contrapartida, foram libertadas da obrigação de copiar o mundo. “Isso fez surgir movimentos como o cubismo, o expressionismo, o impressionismo. O foco passou a ser a visão única de quem cria.”
Na avaliação de Garcia, a inteligência artificial cumpre papel semelhante hoje. Ao assumir parte do processo técnico, ela desloca o centro da criação para a sensibilidade humana. “Custa muito caro dedicar uma vida inteira a aprender um ofício expressivo”, diz. “O que a IA permite é ampliar a nossa capacidade de manifestar o que a gente sente e aprofundar o autoconhecimento.”
A partir de uma definição de Tolstói, de que a arte transmite sentimentos, enquanto as palavras transmitem pensamentos, o artista defende que todos podem ser criadores. “A arte não é sagrada. É quase fisiológica. Todo mundo tem um mundo interior emocional rico.” Nesse contexto, a IA não cria sozinha: ela responde às decisões humanas. “A transmissão do sentimento está nas infinitas decisões que a gente vai tomando. É a nossa bússola interna.”
Essa bússola, no entanto, não é apenas estética. Para Garcia, ética e responsabilidade são questões fundamentais no uso da tecnologia. Ele alerta para vias presentes nos bancos de dados e para o risco de reforçar estereótipos. “Se você pede a imagem de um CEO, a chance de sair um homem branco é muito maior”, exemplifica. “A tecnologia é amoral. Quem decide como usar somos nós.”
O artista também aborda o debate sobre direitos autorais e apropriação de estilos. “Existe diferença entre usar o trabalho de outro artista para experimentar e falsificar uma obra fingindo ser aquela pessoa”, afirma. Para ele, além da lei, há uma dimensão moral que precisa orientar as escolhas.
A própria trajetória de Garcia com a IA ilustra seu potencial criativo. Ao perceber que os sistemas eram fortemente enviesados por referências de países ricos, ele passou a tensionar os limites da ferramenta, criando imagens que misturavam cultura pop e carnaval brasileiro. “Eu queria ver a minha realidade com esse olhar que faz parte do meu imaginário.” O resultado foi um processo próximo ao da fotografia de rua: aberto ao acaso, à perda e à surpresa.
Mais do que produzir imagens impactantes, o artista vê na inteligência artificial uma chance de democratizar a imaginação. “Hoje, grande parte dos nossos sonhos vem de Hollywood e da televisão”, observa. “A IA permite que as pessoas fabriquem o próprio imaginário, criem identidade e transformem a visão coletiva.”