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A inovação na indústria é um dos mais importantes movimentos a serem feitos por qualquer país que queira se tornar competitivo na nova economia. Em estados em que esse setor é uma das molas de crescimento, como o Rio Grande do Sul, essa visão é ainda mais essencial. E podemos dizer que temos projetos importantes acontecendo por aqui, como a do Instituto Hélice, iniciativa da Serra Gaúcha que tem como mantenedoras Florense, Marcopolo, Metadados, Randon e Soprano.

O projeto nasceu para aproximar empresas e startups, movimentando o ecossistema de inovação. Hoje, já é motivo de inspiração para outras regiões do Estado. “As cidades médias, de certa forma, são as startups das cidades, porque elas são mais ágeis, enquanto que em grandes capitais esse processo é mais lento e demorado devido ao grande número de atores”, observa o executivo do Hélice, Thomas Job Antunes.

O Instituto Caldeira acredita muito nas iniciativas regionais e na força da colaboração. Por isso, vamos apresentar nas próximas semanas algumas startups que estão contribuindo para a transformação de importantes indústrias gaúchas. 

No especial Radar Caldeira Serra, você vai conhecer cinco delas: MeEmpresta, MinhaEscola, ScorePlan, O Sucateiro, YouBot e Waybol. Acompanhe aqui no nosso site e nas redes sociais. 

“Há algumas décadas, poderíamos ser vistos como concorrentes, mas hoje atuamos em conjunto porque entendemos o potencial de impacto da colaboração entre as regiões do estado na geração de riqueza. Cada um com a sua vocação, mas atuando em conjunto”, destaca o gestor.

Agora, confira essa entrevista especial que fizemos com o Antunes. 

Instituto Caldeira – Temos visto um movimento importante de inovação de forma mais descentralizada pelas regiões do Brasil, como é o caso do próprio Hélice. Como você percebe isso?

Thomas Job Antunes – Esse movimento é natural devido às características das cidades médias brasileiras, onde a concentração de riqueza está em uma vocação específica como, por exemplo, no agronegócio, na indústria e no turismo. Já as grandes cidades possuem uma vocação plural. Isso é fundamental para o País, tendo em vista a descentralização populacional das grandes capitais. Conforme o último levantamento da Endeavor, as cidades médias tem se destacado, e eu credito isso a relação mais próxima entre os atores do ecossistema, fazendo com que as ações ocorram de forma mais rápida e menos burocrática. As cidades médias, de certa forma, são as startups das cidades, porque elas são mais ágeis, enquanto que em grandes capitais esse processo é mais lento e demorado devido ao grande número de atores. 

Instituto Caldeira – Qual a importância da mudança de cultura para a indústria abraçar, de fato, a inovação? 

Antunes – Historicamente, a indústria sempre foi a principal indutora de inovações tecnológicas, no entanto, quando falamos de mudanças de mindset e cultura, podemos encontrar alguns bloqueios. A indústria sempre foi vista como conservadora, especialmente no Rio Grande do Sul. Essa é uma percepção controversa, mas que pode ter algum fundo de verdade. Movimentos de inovação aberta, a exemplo do Hélice e do Instituto Caldeira, são fundamentais para aproximar as indústrias de empreendedores de startups, investidores e academia. Assim, funcionam como um acelerador do processo de transformação cultural, com benefícios em tecnologia e agilidade, mas principalmente na forma de trabalho colaborativa. Cada vez mais as margens migram para serviços, e a inovação aberta é o caminho para questionar e viabilizar novos modelos de negócio. A postura de abertura das indústrias é a chave para a transformação do setor.

Instituto Caldeira – Como o Hélice tem procurado se posicionar para apoiar essas empresas? 

Antunes – O Hélice atua como um grande articulador, aproximando empresas e demais atores, fomentando assuntos relacionados a transformação de cultura e de negócios. No dia a dia, promovemos conexões de empresas com startups e com a academia para o desenvolvimento de tecnologia e a formação de pessoas. Com o poder público, buscamos questionar e construir novos caminhos para um ambiente mais favorável para os novos empreendimentos baseados em tecnologia. Além disso, também oferecemos suporte a empresas para o desenvolvimento da sua maturidade em inovação, utilizando de forma ativa a rede do Hélice, um conjunto único de conexões que impulsiona do processo de evolução. Nosso principal objetivo não é assumir o protagonismo, mas desenvolver protagonistas na região, tanto no âmbito das empresas, quanto na academia e no poder público. Só assim o ecossistema será estruturado e pujante, renovando a matriz econômica da região no médio e longo prazo.

Instituto Caldeira – O que explica o sucesso do Hélice na Serra Gaúcha e o fato de estar inspirando outras regiões?

Antunes – Sempre tivemos como base dois aspectos culturais da Serra Gaúcha: pragmatismo e foco na ação. A soma desses fatores leva a criação de resultado e isso, por si só, pode ser inspirador. A inspiração a partir do discurso dura pouco, já a inspiração a partir do resultado gera impacto. Dessa forma, ficamos muito felizes com o que estamos construindo e vemos com bons olhos outros ecossistemas passando por essa mesma experiência. Isso é inspirador para nós. Recentemente, na Mercopar 2020, lançamos a nossa parceria com a Secretaria de Inovação, Ciência e Tecnologia do RS para o programa Startup Lab Hélice, onde cedemos a nossa metodologia de colaboração entre empresas e conexão com startups para que outros ecossistemas possam se desenvolver com base na nossa experiência e nos aprendizados ao longo do nosso caminho. Fundamentalmente, o nosso Estado deve se transformar e crescer a partir da inovação e, se pudermos contribuir, estaremos atendendo ao nosso propósito.

Instituto Caldeira – Como você enxerga a aproximação de diversos atores do ecossistema de inovação, algo que não era comum no passado?

Antunes – Isso é algo extremamente positivo. Essa aproximação tem o objetivo de lançar uma mensagem para a comunidade de que a colaboração é o caminho para o crescimento. Há algumas décadas, poderíamos ser vistos como concorrentes, mas hoje atuamos em conjunto porque entendemos o potencial de impacto da colaboração entre as regiões do estado na geração de riqueza. Cada um com a sua vocação, mas atuando em conjunto.

Instituto Caldeira – A indústria do RS está preparada para o futuro? 

Antunes – 100% preparados nunca estamos, já que o que existe atualmente é um processo contínuo de adaptação. Creio que as indústrias precisam estar preparadas para essa adaptação constante. O futuro nada mais é que uma grande sequência de incertezas, e quem estiver preparado para navegar em incertezas vai conseguir passar por elas e ser longevo em seu mercado. Isso é, em suma, a capacidade de inovar. Já inovamos nas nossas empresas, mas precisamos desenvolver essa capacidade de rápida adaptação. Dentro desse cenário, o conservadorismo gaúcho é um ponto de atenção. É preciso abrir mão de alguns valores que conservamos e buscarmos novas convicções mais conectadas com o cenário atual e, porque não, novos riscos. Empreender e inovar envolve correr riscos e é impossível adaptar-se sem uma pitada de risco calculado.

Instituto Caldeira – Quais os planos do Hélice para esse ano?

Antunes – Em 2021, vamos intensificar as atividades construídas no ano passado, com muito foco em conexão com startups, um processo de mentoria bem estruturado e investimentos em startups com ainda mais força. Queremos transformar essas ações em impacto visível para a comunidade, e isso passa por comunicação e tangibilização dos resultados gerados na região.

Por que o nome Hélice?

O nome Hélice foi escolhido por trazer conceitos que estão aderentes à proposta do movimento, que visa aproximar empresas e startups, movimentando o ecossistema de inovação. Em uma hélice todas as pás possuem a mesma importância e saem do mesmo centro, ou seja, o protagonismo é coletivo. 

Ao se moverem em conjunto, causam transformação, inovam, criam uma força nova. Além disso, a geração de vento também remete à renovação, abundância, sustentabilidade.