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O ano de 2020 acelerou uma série de mudanças que já vinham ocorrendo nas empresas. Mudanças que rapidamente vieram à tona, quando foram inseridas em um contexto que nenhum dos mais conhecidos futurólogos ousaria prever.

Novas formas de gerir negócios ganharam espaço, ressignificando até mesmo os locais de trabalho, os quais apresentavam estruturas físicas robustas e fortemente conectadas. Diversas empresas já anunciaram inclusive que, a partir desse ano, disponibilizarão seus espaços somente para reuniões e os manterão apenas como ambientes de interação entre colaboradores. O tão conhecido “home-office” se tornou realidade.

Além disso, as empresas revisitaram seus planejamentos estratégicos, reduziram custos e estabeleceram novos processos. Reinventaram-se em curto espaço de tempo.

Uma das principais mudanças vem sendo a necessidade de transformação digital que, neste cenário, deixou de ser um diferencial competitivo e tornou-se um movimento de sobrevivência. A questão é que nem todas as empresas estão preparadas para tal transformação.

O que era para ser um processo gradual com mudança de mindset, alinhamento de objetivos e estratégias, assim como diversas revisões do ponto de vista de processos e produtos, agora é prioridade nas agendas das grandes corporações e empresas tradicionais.

Baseado na urgência do tema e no empenho do Instituto Caldeira – como iniciativa voltada para a construção de um ecossistema preparado para este novo cenário – convidamos Telmo Costa, CEO da Meta, um dos principais agentes de transformação digital no mercado brasileiro, para compartilhar conosco um pouco da sua experiência e das suas observações sobre este período “conturbado” em que vivemos. Além disso, pedimos a ele algumas dicas para aqueles que vêm trabalhando em prol da transformação digital dos seus negócios.

O termo “Transformação Digital” vem ocupando um espaço cada vez mais significativo na agenda empresarial. O que era visto como um tópico de reflexão necessária, no contexto pós COVID-19, tornou-se movimento de sobrevivência. Entretanto, quando o assunto tenta evoluir internamente nas empresas, ainda há um desafio inicial que é o entendimento do significado e dos diversos elementos que compõem essa “tal transformação”. Em linhas gerais, como você resumiria o conceito?

De forma bem objetiva, entendo que podemos definir transformação digital como um processo no qual as empresas e as organizações fazem uso de novas tecnologias, tanto para melhorar a proposta de entrega de valor aos clientes, quanto para aprimorar seu desempenho e alavancar resultados, reinventando, consequentemente, seus modelos empresariais e suas formas de fazer gestão.

Viver na era digital é compreender que as pessoas estão no centro de tudo isso e com ainda mais protagonismo. Protagonismo no jeito como elas pensam, agem, se relacionam, estabelecem vínculos e no modo como consomem. As novas tecnologias potencializam, ampliam e suportam mais ainda esse protagonismo.

Norteadas por estas mudanças constantes nos hábitos dos consumidores, as empresas estão revendo seus negócios à luz da geração de valor, segundo a perspectiva do cliente, num estímulo que vem de fora para dentro e que retorna no sentido oposto. O cliente ganha foco central neste movimento, que é condicionante para a sobrevivência nesta nova economia. Há outro fator que chama muito a atenção neste panorama: a velocidade que, muitas vezes, faz com que as regras que norteavam a liderança empresarial e o progresso dos negócios não se aplique ou não faça mais sentido.

A revolução digital acelerou esta necessidade de reinvenção como combustível e alicerce para a criação de novos produtos, serviços, soluções e para o desenvolvimento de mudanças culturais nas empresas orientadas para este novo cenário.

Então, diferentemente do que muitos pensam, essa não é apenas uma transformação puramente tecnológica.

O foco na melhoria da experiência do cliente exige agora uma nova cultura organizacional, novas competências de desenvolvimento de pessoas, modelos ágeis de operação e soluções de tecnologia comprometidas com resultados efetivos. Isso torna imprescindível uma mudança de mentalidade das empresas como um todo.

As organizações que já nasceram em ambientes digitais, com processos e operações ágeis e colaborativos, precisam seguir se renovando e continuar inovando para se diferenciar. Com novos produtos e serviços, utilizando plataformas digitais a fim de atender o mercado e seguir se antecipando ao futuro.

Aquelas empresas que estão pensando só em migrar agora seus sistemas para novas tecnologias, talvez ainda não tenham entendido a dimensão do que estamos vivendo.

Aqui, adiciono um ponto que é importante: acredito que ser resiliente é parte da chave para construir valor em meio a essa fase de constantes mudanças que estamos vivendo.

Um artigo intitulado “O novo consumidor pós-COVID”, publicado pela McKinsey & Company no mês de maio de 2020, avaliou o impacto da Covid-19 nas empresas e concluiu que a crise tem afetado todos os setores, mas de maneiras diferentes. O estudo indica que empresas com resiliência, que adaptam seu modelo operacional e se transformam rapidamente, respondem com mais brevidade à crise. Na sequência, a pesquisa mostra que, além da resiliência, o futuro está no digital, reforçando a minha visão que a tecnologia é uma parte muito importante da resposta, mas não exclusivamente ela.

David L. Rogers, autor do best-seller “Transformação Digital” – um dos mais conhecidos livros sobre o tema – afirma que existem cinco domínios em mutação na era digital: “clientes, valor, competição, inovação e dados”. A dúvida que surge nesse contexto é: por onde começar, considerando os diferentes estágios de maturidade no tema?

O ponto de partida é definir um objetivo estratégico prioritário, concreto, mensurável e com potencial de geração de resultado, por exemplo: aumentar a carteira de clientes, reduzir o ciclo comercial, minimizar o tempo de lançamento de produtos e serviços, rever custos da operação, simplificar a estrutura, aumentar a retenção das pessoas, e assim por diante.

Geralmente, analisamos estes norteadores para estabelecer junto com os clientes, a muitas mãos, as mudanças organizacionais necessárias para alcançarmos estas conquistas.

A partir desta compreensão das necessidades e expectativas dos clientes, definimos a estratégia de transformação digital, que é muito mais ampla do que o investimento apenas em sistemas, plataformas, soluções.

Apoiamos as empresas a repensarem seus modelos de negócios, a criarem operações digitais preparadas para o futuro. Provemos inteligência para a tomada de decisões assertivas, centradas no valor do negócio.

Uma vez adequado este modelo de governança, seguimos na identificação de novos potenciais de geração de resultado, através da evolução progressiva da maturidade em cada um dos aspectos envolvidos na transformação digital.

Transformação Digital pressupõe mudança na maneira de pensar e, consequentemente, uma mudança de comportamento. Isso envolve diretamente as pessoas e sugere modificações no status quo. Um teste de resiliência para as relações interpessoais. Como conduzir tais mudanças?

A transformação digital das empresas, na grande maioria dos casos, exige mudanças organizacionais profundas.

É preciso que as companhias tenham uma visão clara de presente e de futuro para que suas pessoas possam acompanhar este novo mindset, e possam fazer parte da jornada de transformação, que garante o pertencimento e reduz a resistência.

As pessoas são peças fundamentais neste processo. Por isso, a necessidade de uma governança ativa, comunicação transparente e muito engajamento interno.

Temos um time de especialistas dentro da Meta que é só para cuidar deste contexto: pessoas, cultura e impacto. Ali, trabalhamos no apoio para a criação e o desenvolvimento de novas competências que possam ser efetivas nesse novo modelo.

Outro livro que não podemos deixar de citar é o “Plataforma: A Revolução da Estratégia”, do pesquisador do MIT, Geoffrey Parker, que sugere um novo modelo de negócio que vem transformando drasticamente o mercado. Empresas tais como Uber, Netflix e Amazon vêm mostrando que há uma nova lógica possível para diferentes segmentos. As organizações brasileiras estão prontas para esta realidade? Nossas empresas estão preparadas para essa transformação?

Os negócios operados por meio de plataformas digitais vêm crescendo rapidamente no mercado mundial e brasileiro, inspirados pela trajetória das marcas mencionadas por vocês. Estes cases representam uma verdadeira disrupção dos modelos tradicionais e trazem como diferencial oportunidades de crescimento exponencial.

As novas plataformas digitais simplificam caminhos e criam redes ágeis de conexão com parceiros e clientes, facilitando o compartilhamento de dados, a cocriação de produtos, a combinação de serviços e a expansão de portfólios.

Acredito que todo o mercado esteja acompanhando bem de perto estes novos caminhos. Já temos cases muito emblemáticos no cenário nacional, experiências de muito sucesso de empresas como Rede Globo, Localiza, Lojas Renner, Banco Original, Sascar, Vale, entre tantos outros.

Qual a importância de iniciativas como o Instituto Caldeira nesse contexto?

O Instituto Caldeira tem o papel extremamente relevante de aproximar e conectar empresas líderes em seus mercados com startups, apoiando a construção e a consolidação de um amplo ecossistema de inovação. É um parceiro que impulsiona novos negócios – e a própria transformação digital – por meio da proposição de hubs para a troca de experiências e criação de novas parcerias.

Uma iniciativa que viabiliza o empreendedorismo, fomenta o conhecimento e cria condições para o desenvolvimento de novos agentes de mudança na economia digital.

Para quem está estudando o tema, que livros você recomenda?

Além do livro já citado, “Plataforma a Revolução da Estratégia” de Geoffrey Parker, recomendo também a leitura dos livros:

“O Poder do Encantamento”, onde José Galló, num dos capítulos, mostra a percepção da necessidade da reinvenção e a adoção da Jornada da Transformação;

“Implantando Estratégia Digital”, de Sunil Gupta;

“Organizações Exponenciais”, de Salim Ismail;

“Desvendando a Cadeia de valor do Cliente”, de Thales Teixeira;

“BLITZSCALING: O caminho Vertiginoso para Construir Negócios Extremamente Vitoriosos”, Chris Yen e Reid Hoffamn

“Driving Digital: The Leader’s Guide to Business Transformation Through Technology”, Isaac Sacolick.