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Apesar de serem a maioria da população, as pessoas negras ainda são sub-representadas na mídia online e offline. Seja na frente das câmeras, nos bastidores ou no meio acadêmico, a presença de pessoas negras está longe de refletir a realidade do país.

É o que avalia o jornalista e doutorando em comunicação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (Pucrs) Wagner Machado. Desde a graduação, o pesquisador se dedica a analisar a presença – ou a ausência – de pessoas negras na mídia nacional e regional.

Durante o mestrado, Machado estudou a representação dos negros na televisão, a partir do programa Mister Brau, da rede Globo. Atualmente, o jornalista pesquisa a invisibilidade dos doutorandos negros nos programas de pós-graduação em Comunicação no Rio Grande do Sul.

 Não dá pra conceber um Brasil que não consegue reconhecer o povo que é maioria quantitativa. Este assunto é urgente e necessário, pois a mídia é muito importante na sociedade e ela precisa valorizar e retratar o povo preto sem estereótipos racistas”, afirma.

Wagner participou da edição do evento Afro’N’Talks, realizada no Instituto Caldeira, no 4º Distrito, em Porto Alegre.

O Afro’N’Talks foi criado pela associação de afroempreendedorismo Odabá com o intuito de promover a discussão sobre diversos temas relacionados com o empreendimento. Além disso, o evento também divulga o trabalho de profissionais de diversos setores.

Para o palestrante, é necessário ampliar a diversidade racial na mídia e no meio acadêmico, pois, em alguns casos, quando uma pessoa negra fala sobre racismo, algumas pessoas deslegitimam a questão, entretanto, quando uma pessoa branca fala sobre o tema, o seu discurso é legitimado.

Como pesquisador, em alguns casos, quando eu falo alguma coisa, as pessoas dizem ‘ele quer advogar em causa própria’ sim, também, mas eu tenho um método, eu não falo o que eu quero, eu busco dados sobre este tema”, defende.

Além da representatividade, na avaliação de Machado, a ampliação da contratação de profissionais negros que atuam no setor midiático, como jornalistas, publicitários e relações públicas torna o ambiente das empresas e organizações mais “tencionados”.

Ou seja, o aumento da diversidade resulta na ampliação do debate sobre questões raciais, o que afeta diretamente o “produto” que está sendo desenvolvido pelas empresas e organizações.

Quanto mais diverso o ambiente é, mais inovação é produzida.

A presença de pessoas negras no mercado de trabalho faz muita diferença, pois as pessoas vão pensar duas vezes antes de cometer um ato racista, vão refletir mais sobre isso.”

Itanajara Almeida, empreendedora do ramo da beleza e um dos nomes à frente da Odabá, a presença de pessoas negras em espaços midiáticos e comerciais impacta diretamente os hábitos de consumo dessa parcela da população.

É importante estarmos sendo representados e realmente enxergando quem somos. Isso faz com que a nossa vontade de consumidor e de usufruir aquilo que é ofertado para todos seja, realmente, uma forma de mudança. Nós, enquanto comunidade negra, queremos estar representados e, principalmente, no nosso lugar de fala, que é o que realmente hoje nos interessa e nos importa.”