scroll

Uma nova era para o mundo das artes, da música e do varejo. Esse é um bom começo para explicar a disrupção que os NFTs, os Non Fungible Tokens, estão provocando no mercado. A tecnologia digital, construída com blockchain, garante a propriedade e a exclusividade do que é comprado, seja ou não arte digital. E isso por si só já está possibilitando a nossa estreia em um novo mundo, que ainda causa fascínio e, ao mesmo tempo, estranheza.

Afinal, o que faz uma pessoa pagar milhões por um meme? Ou adquirir um tênis virtual?

O NFT realiza o sonho dourado dos autores digitais. O token de itens não fungíveis traz o efeito da raridade para as criações”, resume Gustavo Schifino, head de Transformação Digital da DX.CO, da 4all Group, que mergulha cada vez mais nas possibilidades destas aplicações, além da arte digital.

Isso já é uma realidade no mundo e traz um novo oceano para ser navegado, provoca o empreendedor, um nativo do varejo que apostou nos novos arranjos proporcionados pela tecnologia, que se funde com a chamada web 3.0 e as novas conexões e experiências de usuários, do digital ao físico, e vice e versa.

“O varejo também vem ampliando o uso do NFT, como fez a Toys”R”Us no seu retorno ao mercado com um colecionável da sua girafinha feito pelo artista digital Brian Lopez. Quem comprar a girafinha digital terá acesso a descontos e eventos da empresa”, exemplifica Schifino.

Um relatório do site NonFungible.com dá a dimensão do ritmo vertiginoso e exponencial das negociações de NFTs no mundo: em 2019, as vendas somaram US$ 24,5 milhões. No ano seguinte, em 2020, da eclosão da pandemia do novo coronavírus, a cifra ficou em US$ 82,5 milhões, elevação de 236%. Em 2021, houve uma explosão de negócios: US$ 17,7 bilhões, alta de 21.350%, com 2,3 milhões de compradores, 1,2 milhão de vendedores e 2,6 milhões de carteiras ativas.

NFT não é um produto, é um novo protocolo que abre uma imensidão de novas possibilidades. O grande ponto de transformação para as marcas é a capacidade que elas têm hoje de encontrar um grupo hiperinteressado no seu negócio e ressignificar essa relação”, comenta o head de estratégia da Global, Nicolas Skowronsky.

Ele observa que, ao adquirir um NFT de uma empresa, o consumidor passa a não ter um interesse apenas emocional e funcional, mas se vê diante da possibilidade de ter um ganho por meio de benefícios exclusivos e até mesmo financeiros. “Nesta nova dinâmica, o consumidor apaixonado pela marca ajudará a construir valor e uma verdadeira comunidade para que aquele ativo que detém em conjunto valorize ao longo do tempo e, assim, ele, a marca e o holder da NFT ganhem”, aponta.

A adesão aos NFTs no mundo da arte digital abriu um caminho que combina aceitação e reconhecimento, descreve a educadora de arte e assistente de produção na Bienal do Mercosul, que ocorre este ano no Instituto Caldeira, Kailã Isaias. Aliás, compreender o alcance e os impactos dos sistemas de criptomoedas no mundo da arte virou pauta na academia.

Kailã faz mestrado em artes visuais e começou a pesquisar sobre os NFTs. “Eles ganham cada vez maior proporção. E a pergunta que muitos fazem é se eles são arte. Não, NFT é mais uma forma de venda da arte, que é negociada na internet”, reforça.

Uma característica do universo dos NFTs é a quebra de intermediários, com mais autonomia nas negociações e menos regulação. Para ser arte, passa pelo reconhecimento de agentes, que dão esta credencial.

“Isso também envolve a busca do valor simbólico da arte. Demora para que os agentes reconheçam as criações digitais como arte. Tudo vai passar pela compreensão de como funcionam os processos da internet”, analisa.

Agora: o que pode mudar verdadeiramente no sistema da arte, que reúne desde os artistas, instituições, mercado e mostras como uma Bienal? Kailã acredita que cada vez mais a arte digital estará presente. Na Bienal do Mercosul, a expectativa é que tenham participantes deste segmento. Além disso, galerias exclusivas de arte digital passam a ser abertas, no exterior, em mercados como o de Nova York, e no Brasil.

Cada vez mais o sistema da arte vai aceitar estas obras e mais exposições vão surgir com estes artistas tanto mercadologicamente como nas instituições”, diz.

NFTs é tema do terceiro episódio da série Ideias do amanhã, que conta com a curadoria do Jornal do Comércio e do Instituto Caldeira, e que está apresentando semanalmente conceitos e tecnologias que estão rompendo as fronteiras entre o mundo físico e digital, norteando a visão e as ações das empresas do futuro e, claro, impactando a forma como vivemos e como fazemos negócios. Os conteúdos estão sendo publicados no Mercado Digital, plataforma de conteúdos sobre tecnologia e inovação do JC, e aqui no nosso blog.

Criptoarte traz descentralização para a arte cria novas oportunidades para artistas

Tatuador desde os 22 anos, o designer gráfico de São Paulo Daniel Griza não vive mais apenas de tatoo. Aliás, fazer as inscrições em quem aprecia o seu traço virou prazer, diz ele, porque o dinheiro ele passou a ganhar mesmo com suas coleções vendidas no universo das criptoarte ou, mais especificamente, por meio de NFTs.

Cada vez tem mais gente buscando arte em NFT, mais que arte física”, conta o designer, que tem uma galeria e não vê no fluxo físico o que há quase um ano ele vive no ambiente digital. Ali, as suas séries de colecionáveis valem tezos, um tipo de criptomoeda, como a bitcoin ou o Ethereum,e  podem ser transacionados quantas vezes for possível, dependendo do interesse dos adeptos desse mercado. “Isso ajuda a valorizar a obra. Muita gente compra para revender, o que é mais limitado na obra física”, avalia Griza.

Mas há muito mais por trás dessa nova forma de inserir arte ou criações que podem até não ser consideradas arte. No rol de arte digital, está a mais valiosa até hoje transacionada, do artista gráfico norte-americano Mike Winkelmann, o Beeple, que vende 100% de suas criações via NFT.

A mais valiosa e que foi um marco nesse novo mercado é a obra Every Days: the first 5000 days, colagem de 5 mil fotos, leiloada pela casa londrina Christie por US$ 66 milhões, em março de 2021.

Griza está longe da cotação obtida por Beeple, que fez o painel de fotos em 5 mil dias. Mas ele está bem empolgado com as negociações que os NFTs, e sua chancela de exclusividade, aportam às séries dos Cryto Castle e Crypto Tower. O mais recente é o future Bastards.

Desde o começo do ano, ganhou R$ 30 mil com as tatoos e mais de R$ 200 mil com os NFTs. “Conheço ilustradores que não ganhavam nada no mercado normal e hoje conseguem ganhar muito dinheiro”, cita.

A valorização obtida por Beeple e mesmo os macaquinhos da série Bored Ape, que ganharam mais popularidade no Brasil após o jogador Neymar acrescentar dois tokens da coleção a seu acervo que tinha três aquisições por US$ 6,3 milhões, reforçam o mecanismo por trás dessa negociação.

A aplicação dos NFTs se transforma em recurso que pode ser sacado por uma marca que atua com escassez de itens, o que vai valorizar o passe para seus fãs, como a movimentar iniciativas sociais, com arte para ajudar comunidades, que é o projeto Favela Carioca, com 96 ilustrações que representam comunidades do Rio de Janeiro, que serão ajudadas de acordo com a venda dos tokens. A oferta é feita pela plataforma da Overseas, e as artes digitais foram criadas pelo Newtokeblock.

Griza traz ainda mais dois elementos que se associam ao mecanismo dos NFTs e que atraem adeptos como ele e muitos artistas que ele conhece ou passou a conhecer. Um deles é a possibilidade de experimentar novas formas de criar sua própria arte, testando a aceitação na oferta ao público de criptoarte.

Nos primeiros projetos, usava pseudônimos, porque queria ter mais liberdade para testar coisas novas. Hoje os compradores já relacionam com o meu nome, o que eleva o interesse para comprar. Quando consegue vincular nome com o que está gerando interesse é muito legal”, descreve o designer.

A segunda faceta é a comunidade de artistas que associam seus trabalhos a NFTs. Griza diz que compra tokens de artistas mais conhecidos, de colecionador e de amigos. “Compro de quem compra minha arte e retribuo. É como se eu devolvesse para a comunidade o que ganhei”, valoriza o tatuador. Esta negociação feita entre artistas gera ainda mais um efeito. Como a cada transação, seja da primeira compra ou negociações secundárias, o autor da obra ganha 10% do valor, ou seja, todos ganham, empolga-se Griza.

A vida em metaversos é possível e mais feliz? 

“Posso garantir que o metaverso mudou minha vida”, diz com naturalidade o metarquiteto e artista Alberto Brant, do Rio de Janeiro, que, no universo de criadores e designers adota o nome Ottis OTS. Brant, de 25 anos, constrói galerias e prédios nos metaversos Decentraland, CryptoVoxels e SandBox, e cita que sua arte hoje pode ser vista e adquirida usando NFTs e outros tokens, em todo o mundo.

Meu projeto artístico é difícil de explicar em palavras: é um mundo mágico onde brinco com elementos como a natureza que é transformada da cor verde para a roxa, que é como as pessoas que entram nele veem”, descreve.

Ottis, como prefere ser chamado, acredita que o metaverso está muito acessível, que não é preciso um computador que consiga rodar os ambientes, que muita coisa hoje, como filtros que são aplicados, já trazem referências e são metaversos. “Qualquer ambiente virtual que consiga interagir, onde usuários consigam construir, e é multiplayer para interação”, conceitua o metarquiteto. “Há uma parte da comunidade que diz que tem de interagir com NFTs, mas não acho necessário. O que é obrigatório é o usuário poder criar dentro.”

Essa “voz ativa” do usuário, observa Brant, traz outras práticas culturais que passam a se consagrar, como a da governança por comunidade e a descentralização. Esta última  tem duas faces – da conexão por meio de computadores ao redor do mundo que impediria que uma decisão centralizada de um dos metaversos deixe indisponível o ambiente aos usuários espalhados pelo mundo, e a atuação em Decentralized Autonomous Organization (DAO), na tradução Organizações Autônomas Descentralizadas.

É como uma mesa redonda onde os participantes tomam decisões, em vez de ter chefes ou uma hierarquia. Já foram criados tokens de governança, como uma carteira das votações. É a comunidade ditando as coisas dentro do metaverso”, valoriza.

 

Empresas cripto nativas vão movimentar nova economia

A criptoarte é um mercado de negociação estranho ao sistema conhecido por galerias, marchands e entidades que atuam na validação de obras. Mas a expectativa é que colecionadores entrem cada vez mais devido à valorização e ao reconhecimento por quem opera no universo das criptos.

Há artistas desconhecidos ganhando muito mais por obras que quem há tempo atua no mercado físico. E um ponto importante é que a grande dificuldade de arte digital ser aceita no mercado era a barreira da impossibilidade da exclusividade, pois havia a duplicação.

Agora, o NFT cria a condição de que há uma exclusividade para quem é o dono da carteira, analisa Kailã.

O artista digital, com o advento do NFT, pode vender a sua arte. Eles, que eram até então bastante excluídos do mercado da arte, podem agora entrar”, resume.

O CEO do Zro Bank, Edísio Pereira Neto, comenta que a tokenização de ativos, que inclui commodities e até imóveis, e a ebulição do mercado de NFTs, fazem parte de uma tendência mundial de devolver a liberdade ao indivíduo para produzir, armazenar e trocar valores sem necessariamente depender de agentes centralizados. “A popularização dos NFTs é um movimento bastante positivo para o fomento da criptoeconomia”, aponta.

O head de estratégia da Global, Nicolas Skowronsky, analisa que, historicamente, as marcas criavam produtos e partiam para comunicá-lo para as grandes massas.

Na Web 2, as empresas conseguiram criar as suas audiências e, assim, verticalizar a mídia, dependendo menos de terceiros. Agora na Web 3, vemos movimentos diferenciados. “As empresas maiores, com audiências enormes, estão envolvidas em projetos, como das NFTs,  e procurando suas comunidades hiper engajadas. Isso leva a um processo de afunilamento, no qual talvez 10 mil ou 20 mil pessoas serão o epicentro de criatividade e inovação da marca, e ajudarão a vende e construir comunidade”, avalia.

Já as marcas da Web 3, as cripto nativas, já nascem a partir dessas comunidades, que acabam financiando os primeiros passos das empresas. “A audiência vai sendo construída e crescendo, com o tempo”, acrescenta.

Para esse tema avançar, seja nas artes ou nas aplicações para as empresas, entender como proteger os direitos autorais e de uso de imagens é um dos desafios. O sócio do Peck Advogados, Leandro Bissoli, comenta que é necessária a regulamentação dos criptoativos e a aplicação da legislação relacionada à propriedade intelectual dos NFTs.

As discussões legais relacionadas aos direitos autorais em NTFs já estão nos tribunais”, afirma. Para o especialista, a aceitação dos registros como prova de anterioridade e propriedade nas estruturas blockchain trouxe um grande avanço ao mercado de artes digitais e reforçou a segurança jurídica sobre transações e propriedade. “O universo digital (e agora o metaverso) trará inúmeras possibilidades de uso para interação de marcas com seus usuários, bem como fãs com seus artistas. Devemos tomar cuidado, pois qualquer novidade traz consigo muita especulação. Mas uma coisa é certa: esta tecnologia possibilitou uma transformação no mercado que não tem mais volta”, relata Bissoli.

2TM Ventures aposta em marketplace de NFTs

A 2TM Ventures, frente de venture capital da holding que controla o Mercado Bitcoin, anunciou que está investindo na Nano Art Market,  marketplace que tem o objetivo de ir além de uma plataforma de comercialização de obras, propondo transformar a maneira como as pessoas se relacionam com o mercado de arte, por meio principalmente da produção de conhecimento.

Queremos impulsionar o ecossistema com iniciativas inovadoras e revolucionárias, e nos conectar com empreendedores que pensam como nós”, comenta o CEO da 2TM, Roberto Dagnoni. A meta é criar um marketplace de NFTs.

Antes da Nano, a holding investiu, em outubro de 2021 na Tropix, uma plataforma de criptoarte; também no ano passado, fez outros aportes neste segmento: na Fingerprints, que faz curadoria de arte digital em blockchain, e na Block4, plataforma de colecionáveis digitais que trabalha com produtores de conteúdo do mundo do entretenimento, como esportes, música e influenciadores.

A Nano Art Market está desenvolvendo um marketplace de NFTs, em conjunto com a BlockForce, que serão autenticadas pelas galerias que representam os artistas.

Atualmente, a Nano Art Market já garante a legitimidade das obras que comercializa por meio de certificado registrado em blockchain, que é incorruptível.  Esse certificado é o primeiro e único formato vigente que garante a aplicação da lei de sequência ou lei de mais valia, que consiste no direito do artista ou de seus herdeiros de serem remunerados pela valorização decorrente da venda de obras. Além disso, a plataforma fornece um registro sobre o desenvolvimento do artista cuja obra foi adquirida, e que permite ao cliente acompanhar desde o início a carreira do autor.

Além da compra direta de obras de artes certificadas com tecnologia de blockchain, será possível adquirir pelo Marketplace de NFT’s ofertas secundárias. A empresa também lançará um produto de Investimentos com Lastro em Obras de Arte, e um Software para Gestão de Galerias e Coleções, abrangendo todo o ecossistema do mundo da arte.

“A transparência e o acesso facilitado que são possíveis pelos meios digitais vão transformar a forma como as pessoas se relacionam com o mercado de arte. Com a geração dos Millennials, já é possível perceber essa mudança de comportamento, que vai ficando cada vez mais evidente quanto mais jovem ela é”, explica o CEO da Nano Art Market,  Thomaz Pacheco.

 O que é NFT?

NFT, ou token não-fungível, é um certificado de propriedade que não pode ser substituído ou compartilhado. Essa garantia é feita pelas redes blockchain, que atestam que o token pertence a uma pessoa específica. Os NFTs, como de uma obra de arte, um meme ou um tênis digital, por exemplo, podem ser vendidos para outras pessoas.