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“Não podemos ter vaidade. Eu trabalho todos os dias em mim para não ter vaidade. Porque quem tem vaidade fica surdo, deixa de olhar e aprender. Quando a gente pensa que sabe tudo, está perdido”.

Está aí uma das muitas lições do empresário Jorge Gerdau Johannpeter, que participou do Caldeira Insights, iniciativa do Instituto Caldeira que teve a condução  do CEO do hub de inovação gaúcho, Pedro Valério, além da participação de Lucianne Franzmann, founder da 4CINCO, e Matheus Bazzo, founder da Lumine.

O executivo falou sobre como a sua história e a história da Gerdau são quase a mesma coisa. E claro, deu uma verdadeira aula de empreendedorismo!

Hoje em dia é muito comum assimilar o ‘fazer inovação’ com o que é novo. Quando pensamos em inovação, logo vem à mente a transformação digital liderada por Big Techs e pulverizada pelo manancial de soluções das startups. Pensamos nos  unicórnios, no 5G, na Internet das Coisas e em todos esses conceitos que fazem a nova economia.

Mas, a verdade é que a inovação pode até ter ganhado novos jargões e muitas outras verticais nesta era digital, mas ela não nasceu com a internet.

Na verdade, foram as empresas tradicionais as forjadoras do que hoje é entendido por nós como disruptivo. Sem a Gerdau, por exemplo, qual seria o legado que as empresas nacionais teriam hoje no exterior? Como seria a percepção de excelência que os investidores estrangeiros teriam dos produtos brasileiros?

É difícil pensar como seria…

Mas uma coisa é certa, diversos conceitos e práticas tidos como modernos nos dias atuais fazem parte do beabá da Gerdau há pelo menos um século.

Frases como: “Uma gestão eficiente significa saber seu propósito e onde você quer chegar” estão no repertório do empresário Jorge Gerdau Johannpeter desde que ele começou a trabalhar na siderúrgica da família, em meados dos anos 1950.

Atualmente no posto de presidente do conselho de administração da Gerdau, Jorge faz parte de uma linhagem de empresários que comandam há gerações uma das principais e mais antigas empresas do Brasil.

Neste ano, a Gerdau completa 120 anos de história. Jorge Gerdau fará 86 em dezembro. Muita coisa mudou desde que seu bisavô migrou da Alemanha e construiu uma empresa de pregos no interior do Rio Grande do Sul. O lastro cultural da empresa, no entanto, segue intacto.

Apetite por risco

Para o empresário, o empreendedorismo parte de uma premissa muito simples e imutável durante todos esses anos. A lógica de gestão é sempre a mesma, segundo ele: a gente precisa encontrar um gap, mirar num objetivo e conseguir executar.

No entanto, o que define um empreendedor dos demais trabalhadores é a exposição ao risco.

O intelectual sabe tudo, mas não tem coragem para fazer. O empresário, pelo contrário, pode não saber de tudo, mas ele toma o risco de tentar”, explica.

E é a partir dessa filosofia que a Gerdau se desenvolveu. Por exemplo, foi uma das primeiras empresas nacionais da iniciativa privada a abrir seu capital e ofertar ações na Bolsa de Valores.

Também foi vanguarda na capacitação dos trabalhadores das fábricas. Segundo explica Gerdau, para persistir na busca por excelência era preciso criar uma política de escolarização dos funcionários, visto que em meados dos anos 1980 muitos não sabiam ler e escrever. “Fomos buscar exemplos no hub siderúrgico do Japão, que naquele momento era o benchmark global”.

A unidade da Gerdau em Ouro Branco, que é a maior planta da empresa no mundo, com mais de 7 mil funcionários, tem 97% do contingente com o 2º grau completo, percentual que se mantém há mais de 10 anos.

Na vida nós temos que tomar risco. Claro que é preciso mensurá-los, mas sem risco não há crescimento”, comenta Gerdau.

Cultura no Cerne

Hoje pode parecer óbvio que a cultura é uma das partes importantes de uma empresa. É onde tudo começa e termina. É o que move os colaboradores para denominador comum. Mas há 100 anos, para muitas companhias a cultura não era algo tão importante assim. A inovação da Gerdau já começou por aí.

A Gerdau, assim como todo tipo de empreendimento atual, vem com um lastro cultural”, explica o empresário Jorge Gerdau.

Essa cartilha é composta pela não acomodação, pelo aprimoramento tecnológico constante e por encarar o risco como uma oportunidade.

Desde a época que meu pai administrava a Gerdau a empresa já tinha uma veia muito forte de mecanização dos processos, o que hoje é conhecido como automatização. Além disso, sempre esteve no nosso DNA a internacionalização”, conta.

Foi mais ou menos assim que a empresa se adiantou ao se expandir para fora do Rio Grande do Sul na década de 1960. O país começava a se urbanizar e a concorrência que antes era apenas regional passou a vir também de outros cantos do Brasil, estimuladas pela construção massiva de estradas.

Tudo indicava que as empresas com maior capacidade produtiva teriam condições de abastecer para além de seus estados. Por isso, pensamos desde cedo que era necessário  construir uma cadeia de empresas em todo Brasil e não perder espaço para a concorrência. Começamos expandindo para Recife e Fortaleza. Aos poucos fomos crescendo”, lembra Jorge Gerdau. Hoje a siderúrgica tem empresas espalhadas por 12 países.

Mas além da cultura operacional, o empresário conta também que o sucesso da empresa tem base em valores filosóficos de comportamento de vida repassados em gerações.

“Na nossa educação sempre tivemos o controle financeiro muito enraizado, a cultura poupança e da ética, que foi o que nos levou a atravessar diversas crises e permanecer firmes. Além disso, nunca se deixar levar pela vaidade. Até porque o vaidoso é uma pessoa que não escuta”.