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Em um contexto de imprevisibilidade, projeções claras de longo prazo tornaram-se um desafio inimaginável. Observando o mercado, são raríssimas as exceções daqueles segmentos que ainda não mudaram sua sistemática. Os concorrentes que até então eram restritos ao mesmo segmento, hoje surgem por todos lados e nem sequer estão no radar.

Uma série de métodos, ferramentas e estruturas ganharam força nesse contexto, como por exemplos as metodologias ágeis, gestões horizontais, squads em projetos e hubs de inovação. Nenhuma delas, todavia, garantem previsibilidade e controle.

Mesmo que a ideia de empreender seja uma verdadeira aventura em meio a este “oceano” de incertezas, nada impediu que uma geração de empreendedores venha ocupando seus espaços. Essa geração é volumosa. Exemplo disso, é que somente no Brasil, existem 12 mil startups – segundo levantamento da Abstartups – impactando nos seus respectivos mercados.

Eduardo Glitz é um empreendedor em série e grande parceiro do Instituto Caldeira. Já teve êxito e é sócio de algumas empresas como Warren, Startse e XP Investimentos, além de ser fundador e liderar duas DNVBs, Yuool e Lovin’ Wine, que prometem revolucionar os segmentos calçadista e de vinhos, , respectivamente.

Muito conectado com a nova economia e com uma visão muito clara do que é necessário para empreender negócios de sucesso no atual mercado que nos encontramos, conversamos com Glitz para capturar um pouco de sua maneira de enxergar negócios, frente a todo esse atual contexto.

Em um mundo de constantes mudanças e aceleração crescente, qual a sua tradução para a tão falada “Nova Economia”?

“Eu vejo a Nova Economia como uma nova forma de entender e gerir negócios. Por um lado, temos uma série de novas tecnologias surgindo de maneira acelerada, impactando nessa nova forma de gerir empresas, e, por outro, temos um ambiente extremamente competitivo, completamente diferente do que tínhamos até então.

A competitividade atual é transversal, ou seja, empresas que até então não eram de determinado mercado passam a ocupar espaços nos mesmos, além de serem assimétricas, pois pequenos negócios competem com grandes corporações. E isso requer uma mudança nas tomadas de decisões e aceitação de riscos, criando-se uma dinâmica de negócios absolutamente diferente de como era no passado. Esse momento exige, consequentemente, novas formas de gestão.

A Nova Economia se resume a um mundo com transformações muito aceleradas, onde modelos de gestão do passado – que você consegue fazer reuniões de planejamento para os 2, 5 ou 10 anos seguintes – deixa de fazer sentido. Sendo assim, a empresa precisa ter a habilidade de tentar e aceitar que haverá uma série de erros e acertos nesse processo. Elas passam a ser laboratórios de tentativas e erros. É a única forma de se manter competitivo nesse contexto.

Podemos identificar essas características nesse período que estamos vivendo de pandemia, onde decisões, cenários e mercados que até um mês atrás faziam sentido e que hoje, não fazem mais. Negócios de dois meses então, menos ainda. Dificilmente qualquer tentativa de previsão passa a fazer sentido. Precisamos fazer a leitura do cenário hoje e, somente com base nisso, tomar as nossas decisões.”

Em linhas gerais, para mim isso é a Nova Economia. Trata-se da habilidade para tomada de decisões, pois constantemente surgem novas tecnologias que aceleram o mercado e que, ao mesmo tempo, mudam sua dinâmica.

Modelos de gestão tradicionais provam-se cada vez mais antiquados e ultrapassados. Quais características de uma gestão contemporânea?

“Os modelos do passado, que sempre tiveram muito sucesso e que nos trouxeram até aqui – reunindo as principais lideranças das empresas, fazendo um planejamento, descendo para as equipes e, posteriormente, acompanhando para que efetivamente fosse executado – deixam de fazer sentido em uma gestão contemporânea.

Não há mais como fazermos planejamento para daqui a 2, 3, 5 anos e, baseado neste cenário, tomar as decisões. As pessoas precisam rever constantemente o cenário e, somente a partir disso, tomar as decisões. Elas precisam ter a liberdade para assumir riscos. O mais importante disso é que as pessoas precisam estar alinhadas com estes modelos. As empresas precisam entender que, neste novo cenário, errar é necessário.

Tem uma frase do Jeff Bezos, CEO da Amazon, em que ele afirma que só está a frente dos seus concorrentes porque investiu 1 bilhão de dólares em erros. Sendo assim, os concorrentes dele deverão errar muito para chegar onde ele chegou.

O erro nada mais é que um passo para a evolução. E é nessa sequência de tentativas e erros que as empresas se mantêm a um passo da concorrência. Eles tentarão algumas hipóteses, enquanto nós já saberemos que aquilo não faz sentido para o nosso negócio.”

Conectado a inúmeros negócios, você tem muitos sócios. Quais skills você entende como imprescindíveis nas lideranças ao teu redor?

“Eu vejo a principal habilidade como a necessidade de acreditar cada vez menos nas nossas convicções. Frases como “tentei fazer isso há um ano e não deu certo” podem nos levar ao erro, pois o cenário muda muito rápido. Então, talvez, o que a gente tenha feito no passado – entenda-se um ano – e que tenha dado errado, eventualmente agora dê certo.

Precisamos nos manter constantemente revendo e questionando nossas convicções.

Acho que esse é o principal ponto, uma vez que o cenário muda de forma muito acelerada. Logo, precisamos ter os skills necessários para as mudanças e fazer os movimentos rápidos.

Outra característica muito importante nesse contexto é a ansiedade. Pessoas ansiosas são aquelas que tomam decisões rápidas, erram, acertam, mas evoluem. Aqueles que optam por esperar 1 ou 2 meses, fazem apresentações e power points, muitas vezes perdem o timing. A oportunidade já passou.

É preciso ter habilidade para as mudanças rápidas, uma carga de ansiedade e se manter constantemente revendo suas convicções.”

Com longa experiência no universo das fintechs, você participa como sócio de uma DNVB fantástica chamada Yuool. Como foi a conexão com esse setor? Como você explicaria uma DNVB para o leitor?

“A Yuool foi nosso primeiro movimento no varejo. Estávamos muito focados em fintechs, mas tem sido uma surpresa incrível para nós e felizmente estamos tendo um sucesso muito legal com a marca.

O que nós construímos foi uma DNVB (em inglês, significa Digitally Native Vertical Brands), ou seja, uma empresa que nasce digital e que verticaliza todo o processo, do início ao fim. A importância disso é que, através dessa verticalização, passamos a ter todas as informações dos nossos clientes. E isso é muito diferente do que produzir sapatos em uma fábrica e vendê-los para diversas lojas, países, seja para onde for. No fim, não se sabe quem comprou o sapato, o perfil do cliente, nem seu feedback.

Uma frase muito batida é de que “data is the new oil”, ou seja, que os dados são o novo petróleo. E essa é a principal característica de uma DNVB.

Na medida em que todo o processo é vertical, ou seja, desde a fabricação do produto, até a entrega na casa do cliente, uma DNVB participa de toda a cadeia. Sendo assim, ela consegue oferecer uma experiência única de marca, assim como obtém dados do consumidor ao longo de todo o processo. Com base nisso, a marca consegue evoluir muito mais rápido na experiência do cliente, na experiência de compra e, principalmente, consegue entregar o produto certo, para o cliente certo, no momento certo.

Quando se tem todos os dados do consumidor, é possível se antecipar de um determinado comportamento. E isso é o conceito de predição.

O crescimento da Yuool é impressionante. A empresa é supernova, começou em janeiro de 2018, tem pouco mais de dois anos e já conquistou todo mercado nacional, atuando inclusive na Europa e em outros países. Estamos muito felizes com o sucesso que estamos tendo.”

Como instituições como o Caldeira podem contribuir no fomento do ecossistema de inovação gaúcha?

“Eu vejo alguns pontos importantes para fomentar o ecossistema gaúcho:

O primeiro deles, trata-se de uma questão de abertura, isto é, de entendimento e até mesmo cultural sobre as novas tecnologias que vem surgindo e a necessidade das empresas participarem desse processo. Dificilmente as mesmas formas que levaram as grandes empresas a terem sucesso no passado, serão as que as levarão a ter sucesso no presente e no futuro. E isso passa por startups.

As startups estão testando novos modelos de negócios e estão arriscando para tentar criar inovação para o estado.

No momento que você conecta startups e empresas tradicionais, a experiência mostra que isso tem um poder e uma força muito grande.

Por um lado, as grandes corporações possuem duas coisas muito importantes que as startups, justamente por estarem começando, não possuem: marcas fortes e caixa. Por outro lado, as startups possuem empreendedores inovadores e que estão dispostos a errar, quase que de forma rebelde, para mudar algum mercado.

É isso que torna essa conexão muito forte. A união daquilo que falta em cada uma delas, para se manterem competitivas, numa nova economia e em um mercado absolutamente diferente aquilo que até então nós havíamos vivenciado.”

Quais são 05 livros / podcasts / referências que você classificaria como RELEVANTES para os dias de hoje?

“O primeiro livro que eu recomendo foi escrito por mim e pelos meus sócios, Pedro Englert e Marcelo Maisonnave, no qual a gente tenta contar basicamente tudo o que eu tentei descrever nessa entrevista. Falamos sobre as novas dinâmicas de mercado, como nos adaptarmos a elas, como gerenciar pessoas nesse contexto e como tomar decisões. No livro, nós trazemos isso tudo em casos práticos, através das experiências que vivenciamos nas nossas empresas e que, consequentemente, gostaríamos de compartilhar.

Empreendedores: Agilidade, resultados, cultura de dono e um negócio capaz de revolucionar o mercado – Eduardo Glitz, Marcelo Maissonave e Pedro Englert.

O segundo livro que eu acho que tem muito valor foi escrito pelo Maurício Benvenutti, em que ele lista, exemplifica e explica as principais características do profissional contemporâneo que deseja se manter competitivo nesse contexto.

Audaz: As 5 competências para construir carreiras e negócios inabaláveis nos dias de hoje –Maurício Benvenutti.

O terceiro livro que é muito importante ser lido é do Ricardo Geromel, que fala sobre a China de hoje e o quanto ela pode impactar em tudo isso que estamos falando. Em uma nova dinâmica de mundo, muita tecnologia e modelos de negócios estão sendo desenvolvidos lá.

O poder da China: O que você deve saber sobre o país que mais cresce em bilionários e unicórnios. – Ricardo Geromel.

Importante citar também o livro do Felipe Lamounier que aprofunda um pouco mais sobre o que acontece no principal centro de inovação do mundo, que é o Vale do Silício e os motivos pelos quais ele se diferencia tanto. Eu super recomendo!

Sillicon Valley: A Way Through [The mindset behind the world’s larrgest innovation and technology cluster. – Felipe Lamounier.

Por último, um dos livros que mais me agregou pessoalmente e que me trouxe mais aprendizados na vida. É um livro bem antigo, do Amyr Klink, que conta como foi atravessar o Oceano Atlântico na década de 80 com um barco a remo. Através desse livro, a gente consegue entender como algumas coisas que são consideradas impossíveis, tornam-se possíveis. Eu gosto muito dele.

Cem dias entre céu e mar. – Amyr Klink.”