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Professor do Programa de Pós-Graduação em Design Estratégico, coautor do livro “A Escola do Futuro: O Que Querem (e Precisam) Alunos, Pais e Professores” e parceiro da iniciativa do Instituto Caldeira, Gustavo Borba conversou conosco sobre a relação do design e o mindset inovador, a transformação digital nos negócios, a conexão das universidades com as empresas e sobre a importância do Instituto para o desenvolvimento da cidade sob o ponto de vista de inovação e conexão academia x iniciativa privada.

Gustavo Borba tem mais de 20 anos de experiência em Ensino Superior, liderou o grupo de Pesquisa de Design Estratégico para a Inovação Cultural e Social na Unisinos e foi embaixador do TEDx no Brasil. Formado em Engenharia pela Universidade de Santa Maria, fez Pós-Doutorado nas unidades de Ottawa e na Boston College Lynch School.


Ambiente de alta complexidade, modelos de negócios em acelerada transformação digital: o modelo de pensamento, em geral, segue o mesmo. Qual a relação entre o design e mindset inovador? Como o design pode tornar as empresas mais ágeis e competitivas?

“Na realidade, quero primeiro fazer uma pequena provocação: o design não promove rapidez. Estratégias ágeis, tais como Design Thinking e metodologias de prototipagem rápida, da busca por aprender com o erro e da velocidade para buscar solução, essas sim promovem rapidez nas organizações.

Sobre a perspectiva do Design, entendo que está mais voltado para estratégia, na compreensão de novos significados e na busca de inovação. Eu não diria que ela é veloz. Ela é profunda. Não que velocidade e profundidade sejam opostos mas, sim, precisamos entender os diferentes tempos.

Nesse sentido, eu diria que o mindset do Design promove uma compreensão do todo, ou seja, uma compreensão maior daquela pessoa que usa o seu produto ou serviço, não sob o viés de um consumidor/usuário (Design Thinking e outras metodologias ainda enxergam com essa abordagem), mas com um olhar mais abrangente, entendendo que esse ser, digamos assim, em determinado momento de vida, interage com seus produtos. Precisamos entender essa pessoa e, a partir disso, conseguimos operar diferentes inovações.

 

Para ser mais pragmático, eu diria que o mindset inovador e o design estão totalmente atrelados, porque na verdade, o design dialoga com essa perspectiva da busca por diferentes elementos e por novas formas de pensar e de buscar soluções.

 

Também acredito que deveríamos buscar novos significados, mas para isso existem diversas abordagens do Design.”

 

Transformação digital tem sido impactante em todos segmentos. Na educação não é diferente. Como você pontuaria as principais características da Escola do Futuro?

“Eu vejo transformação digital como um meio para alcançarmos novas ferramentas tanto para alunos, quanto para professores. Recentemente, escrevi sobre este momento do online (do remoto) e li um artigo sobre a tendência do online “tomar conta” a partir do momento que estamos vivendo. O fato é que as pessoas estão gostando desse contexto mas sob perspectiva, uma vez a conexão humana, o dia-a-dia, o giro de conhecimento e a construção coletiva presencial, são fundamentais.

A tecnologia que vem sendo apresentada, neste cenário, deve tornar-se um facilitador desse processo, dessas relações. Por exemplo, como eu consigo identificar as dificuldades que um aluno tem em determinados conteúdos e, a partir disso, personalizar uma relação com ele? Como eu percebo quais alunos possuem maior probabilidade de evasão e retomar o contato com ele, a fim de motivar sua continuidade na universidade ou na escola? Para mim, a transformação digital está nestes elementos.”

 

No dia-a-dia, o que é mais necessário, no final de contas, são as competências humanas. Logo, precisamos estabelecer um diálogo entre tecnologia e humanidade.

 

Qual a importância da conexão universidade / empresa? Como esta relação pode ser sinérgica?

 

“Acredito que essa pergunta só exista porque ainda há um erro de concepção. Costumamos dizer que a universidade forma para o mercado, quando na verdade ela precisa formar para a vida. Isso porque o mercado é volátil, mutante. Então, temos que ir além, muito embora esse distanciamento muitas vezes seja visível e é muito natural. Acredito que as boas universidades deveriam estar distantes desse olhar.

Não estou afirmando que há um contrassenso ou que é paradoxal essa formação, tanto para o mercado, quanto para a vida. Pessoas que são bem formadas, isto é, que adquiriram competências transversais e horizontais, podem atuar em qualquer área. Em contrapartida, aqueles que buscam uma formação apenas técnica, neste caso, a universidade perde relevância.

A grande provocação é a forma como a universidade olha para o mercado, buscando além dessa transformação mais horizontal e intelectual, o pragmatismo de competências mais técnicas. Exemplo disso é o conhecido discurso das empresas que contratam pessoas pela competência técnica e desligam, posteriormente, pelo comportamento. A empresa também precisa abrir um pouco mais esse olhar. Os dois lados precisam ceder, para que essa ponta seja conectada.”

 

Como instituições como Caldeira podem contribuir na construção de um ecossistema vibrante de inovação?

“Conseguir capturar o interesse da iniciativa privada, isto é, trazer o mercado para esse diálogo com as universidades e promover essa conversa, é tornar-se o motor da inovação. Um antigo professor do Canadá provocava: “se existem duas pessoas iguais numa sala, talvez uma delas não seja necessária”. O Instituto Caldeira é isso. É o giro do conhecimento.

 

O Instituto Caldeira pode ser muitas coisas, entre elas, um hub de conexões.

 

Conectar diferentes pessoas, interessadas em construir coletivamente algo que explore novas possibilidades é tornar-se efetivamente esse hub de conexões e um espaço onde possamos unir diferentes competências para desenvolver inovação. Esse é o principal ponto.”