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O e-commerce urbano, caracterizado pelas entregas das compras que fazemos on-line diretamente através das lojas, e não mais dos centros de distribuição, vai tomar conta das nossas cidades. Para Andreas Blazoudakis, essa nem é mais uma aposta, mas uma realidade que foi acelerada, e muito, pela pandemia. Visionário e inquieto, o empreendedor criou 17 startups, entre elas a Movile, avaliada em mais de US$ 1 bilhão em 2018 e investidora de empresas como iFood e Ingresso Rápido. Até julho deste ano, era o CEO do Delivery Center, modelo de negócios inovador que chegou ao mercado para assumir todo processo de logística das entregas, recebimento de pedidos, coleta de itens, tracking e execução de entregas por motoboys. O investimento previsto na operação é de R$ 400 milhões até 2021, o que inclui a inauguração de 200 unidades de entregas nos principais centros urbanos brasileiros. Mas, assim como fez com a Movile, Blazoudakis entregou a gestão do dia a dia da operação e foi para a área de inovação da empresa. “O negócio está criado, ganhou tração e agora quero pensar na próxima onda, em construir o Delivery Center do futuro”, aponta. Confira abaixo o bate papo que tivemos com o empreendedor.

Instituto Caldeira – O varejo vive uma transformação, que ganhou tração esse ano quando os players tiveram que atuar também nos canais digitais. Como você enxerga essa trajetória do setor? 

Andreas Blazoudakis – O caminho da revolução que estamos vendo começou com o 3G, quando passamos a ter, de fato, internet no celular. De repente, os sites passaram a estar no nosso smartphone. Com a chegada do 4G, que foi responsável por ligar as pessoas às coisas das cidades, vimos surgir Uber, Airbnb, iFood, entre outros modelos. Isso foi entre 2010 e 2011, o começo da revolução. Em 2015 e 2016, quando começamos a criar o Delivery Center, estava deflagrado que o mercado vivenciaria essa transformação. Foi nessa época que o varejo passou a ser uma nova classe do e-commerce – antes eram coisas diferentes e, inclusive, concorrentes dentro de uma mesma cadeia de lojas. Era algo apartado, que nem entrava nas cidades. Tanto que se formos ver, e-commerces como o do Mercado Livre e Amazon ficam em volta das cidades. O varejo não sabia como tratar e, em busca de eficiência, as redes colocavam as áreas de vendas on-line fora dos grandes centros. 

Instituto Caldeira – O que fez com que as redes passassem a tratar o varejo, de fato, como e-commerce?

Blazoudakis – Com o 4G, o e-commerce veio para dentro da cidade. As áreas de comida e mobilidade puxaram esse movimento, e agora todo varejo virá atrás. Sem falar que grandes redes, como a Magalu e Americanas, por exemplo, já estão trazendo a venda de comida para dentro do seu negócio.

A brincadeira recém começou. O mercado não está consolidado ainda, mas vive um período muito aquecido. 

Instituto Caldeira – O que caracteriza o modelo de e-commerce urbano e porque ele é tão promissor? 

Blazoudakis – O e-commerce urbano é quando passamos a expedir os produtos para os consumidores direto das lojas (ship from store), usando o estoque delas para atender as compras feitas nos canais on-line, e não de um centro de destruição (ship from distribution center). O e-commerce hoje em dia trabalha despachando mercadoria de um CD, nas bordas das cidades, por isso não é urbano. Quando passa a enviar as compras on-line feitas pelas pessoas direto da loja, passamos a ter a possibilidade do same day, ou seja, entregas no mesmo dia. A pessoa adquire um produto pelo site da Magalu, por exemplo, e a loja mais próxima faz a entrega. Com isso, o produto pode chegar em algumas horas, o que traz uma nova experiência de compra para os consumidores. A Magalu e a Americanas são precursoras neste modelo, e outros players as seguirão. 

Instituto Caldeira – A pandemia acelerou muito esse processo?

Blazoudakis – Certamente. Estávamos vivendo essa tendência, até que veio a Covid-19 e acelerou de três a cinco anos essa transformação, que ia acontecer, mas não agora. Hoje, depois de sete a oito meses de pandemia, o mercado de varejo urbano está consolidado. Todas as grandes marcas estão no digital. A maioria abriu seus marketplaces e começa agora a se estruturar entre comida e não comida para ter frequência de uso. Vai ganhar esse jogo quem tiver alta frequência e todo long tail do e-commerce. Aliás, a Magalu foi bem audaciosa. No tripé de frequência, que envolve comida, serviços e mobilidade, ela só não está fazendo mobilidade urbana. Essa era a nossa tese no passado. Quando criamos em 2016 o Delivery Center, nos antecipamos ao mercado. Agora, a Covid-19 acelerou ainda mais esse movimento. De repente, o varejo se transformou em e-commerce com despacho direto das lojas. Em poucos meses, grandes grupos fizeram isso acontecer. 

Instituto Caldeira – E qual a próxima onda? 

Blazoudakis – O futuro é o da desintermediação. As empresas podem fazer esse movimento do e-commerce urbano de forma dominadora – Magalu, iFood, Rappi, entre outras, são plataformas fechadas – ou de maneira aberta. A segunda opção é, na minha visão, uma alternativa de futuro. Isso faz sentido, até porque o varejo acordou e pensou: estou na mão da empresa de entrega. Alguns players tinham 16% de participação das vendas on-line dos restaurantes, e esse ano isso passou para 50%, o que gerou incômodo. O lojista precisa ter o controle da sua operação, inclusive dos dados dos consumidores que compram dele, mas que recebem dos parceiros de delivery.