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O ecossistema de inovação brasileiro possui cerca de 13 mil startups, mas, apenas 4,7% delas foram fundadas exclusivamente por mulheres. Quando pensamos na indústria de venture capital, nos deparamos com uma realidade na qual 74% dos fundos não têm mulheres entre seus fundadores, nem mesmo nos conselhos. Os dados são do Female Founders Report, levantamento realizado pela empresa de inovação Distrito, em parceria com a rede global de empreendedorismo Endeavor e a B2Mamy, e ilustram o que vemos todos os dias no Brasil. Mas, como mudar esse cenário? Para a vice-presidente de Produto e Operações do Grupo RBS e conselheira do Grupo Melhoramento, Andiara Petterle, ter exemplos nos quais as meninas possam se espelhar é um dos segredos na direção de uma maior diversidade. Para ilustrar, ela cita uma cena que recentemente marcou quem estava acompanhando a CEO da Bumble Inc., Whitney Wolfe Herd, que levantou US$ 2,2 bilhões de investidores ao abrir o capital via Nasdaq.  Ela tocou o tradicional sino das operações que fazem o seu IPO com o seu filho de um ano no colo. “Os exemplos são muito importantes. A gente olha todos os dias os sinos do IPO e quase nunca vê mulheres. Mas, se uma menina de 20 anos hoje olha essa cena, pensa: eu posso ser uma empreendedora e ainda ter filhos e viver essa realidade”, comenta.

Confira a entrevista completa com a Andiara, que está fazendo doutorado na Business School of Lausanne, na Suíça, estudando o papel dos conselhos na transformação digital. Ela conversou conosco sobre como a diversidade pode ser um vetor de competitividade e também sobre o momento especial que o ecossistema gaúcho de inovação vem vivendo.

Instituto Caldeira – Qual o valor da diversidade para a inovação?

Andiara Petterle – A diversidade é quase um condicionante para a inovação. Não vamos conseguir contar uma história plural e, assim, avançar nesse mundo guiado pela criatividade e inovação, se o board das empresas não tiver mais mulheres, mais negros, mais diversidade. Se não quisermos que o pensamento seja sempre o mesmo, precisamos fazer esse movimento. Não existe inovação se todos pensarem igual e, para estimularmos novas formas de ver o mundo, temos que trazer pessoas de origens, formações, realidades socioeconômica, gerações e gênero diferentes. Quando a gente olha o mercado e pensamos nas nossas empresas no futuro, tudo isso é importante. Precisamos que todos, empreendedores e ecossistemas de inovação, fomentem esse debate e ajudem na formação de mais lideranças femininas.

Instituto Caldeira – Qual o impacto que essa postura plural pode ter na atração e retenção de talentos?

Andiara – É fundamental. Esse é um caminho sem volta. Não é uma preocupação nova, mas estamos em um momento do mundo em que três coisas se tornaram imprescindíveis para as organizações avançarem: a capacidade de se transformarem digitalmente, a sustentabilidade financeira no longo prazo e a sustentabilidade do ponto de vista do consumidor e do público interno, para atrair e reter os talentos. Isso é cada vez mais crítico, pois as novas gerações são muito mais orientadas ao tema da inovação e para a criação de um ambiente de trabalho plural, que dê espaço para o novo ser criado. A diversidade entra como aspecto importante para a retenção de talentos, e não estamos falando apenas de gênero, mas de todas as necessidades de pensamentos diferentes que precisamos ter nas organizações se quisermos avançar.

Instituto Caldeira – Você enxerga as empresas avançando na visão de ter mais mulheres líderes?

Andiara – Esse é um desafio do mundo corporativo atual, especialmente na área de tecnologia, que sempre foi muito criticada por ainda ter poucas mulheres como executivas e fundadoras – e o mesmo vale para os fundos de investimentos. Mas, existe, sim, uma preocupação maior das empresas com as pessoas. Isso, no fundo, tem a ver com capacidade de representar e ser representativo, de ter pessoas diferentes na sua operação. Na Europa, existem cotas de diversidade de gênero e raça. Algumas organizações precisam, por exemplo, ter 50% de board feminino. É um movimento que começa a acontecer mais intensamente, e não é só porque dá dinheiro, mas principalmente porque afeta a reputação das empresas positivamente.

Instituto Caldeira – Você enxerga o empreendedorismo gaúcho se reinventando?

Andiara – Sim, temos uma oportunidade muito grande para o Rio Grande do Sul exercer ainda mais essa sua vocação para o empreendedorismo, que é uma característica muito nossa. Somos um Estado que se reinventa há dezenas de décadas e cuja base é empreendedora. Um exemplo disso é que, ano a ano, seguimos sempre consumindo mais empresas e marcas gaúchas do que outras.

Nosso Estado se desenvolve a partir das empresas privadas e famílias empreendedoras. Agora, com esse movimento mais recente de inovação, precisamos usar isso que já temos e avançar. As empresas precisam se transformar digitalmente, reaprender novos universos, novas posturas e, assim, seguir pertencendo ao coração dos consumidores.

Instituto Caldeira – Como esse movimento pela inovação que tem acontecido no Estado encontra eco nessa vocação empreendedora gaúcha?

Andiara – Essas iniciativas que começaram com a Aliança pela Inovação de Porto Alegre e com o Pacto Alegre são, na verdade, uma tentativa de realização da vocação do nosso Estado para o empreendedorismo, mas agora com uma nova camada. Para pertencer a esse novo mundo, que é o da tecnologia, da transformação, da cultura e da inovação dos processos e modelos de negócios, temos que dar um passo à frente. O Instituto Caldeira, por exemplo, é um elemento chave desta visão. Precisamos estar todos juntos para transformar o Estado ainda mais a partir da tecnologia e da inovação. Se existe um Estado para fazer isso, é o Rio Grande do Sul. Mas, quando falamos de ecossistema, depende de associações. Não dá para brincar sozinhos, temos que nos dar as mãos.

Instituto Caldeira –   Quais os pontos fundamentais para a construção de um ecossistema mais maduro?

Andiara – Esse movimento pela inovação não é um projeto de curto prazo. Estudamos muito casos de sucesso, como o de Medellín e Bogotá, na Colômbia, e o de Barcelona, na Espanha, quando começamos a construir, a muitas mãos, o Pacto Alegre. Avançar nessa visão depende de muitos elos, como a educação. Também precisamos de um comportamento menos burocrático, ter processos de melhorias contínuas e uma cultura que aceite mais o erro. Essa facilidade para empreender, para abrir uma empresa e contratar é muito importante. Outro pilar é o desenvolvimento de empresas de tecnologia, e aí o Instituto Caldeira entra muito forte no sentido de ajudar a construir um ecossistema que possa ser capaz de unir diferentes elos, partilhar conhecimento. Olhamos com muito otimismo esse movimento. E, claro, precisamos pensar em um cenário financeiro que garanta o fluxo de capital que essas jovens empresas precisam para o desenvolvimento. Um ecossistema maduro de investidores envolve a possibilidade do exit. Todo investimento tem um ciclo, e reduzimos o risco quando temos uma realidade de saída dos recursos aportados nas startups, por exemplo. Todos esses pontos são fundamentais para a construção de um ecossistema maduro para a inovação.  Nada acontece do dia para a noite. O desenvolvimento do Vale do Silício, na Califórnia, começou na década de 1970. Precisamos tempo e que todos atores se mexam juntos.