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Falar sobre a importância do uso de dados dentro das empresas já não é mais novidade.

Um estudo da Microstrategy aponta que 68% das empresas brasileiras planejam aumentar seus investimentos na área nos próximos anos. De fato, a frase criada pelo matemático londrino Clive Hamby já se tornou um jargão e vem sendo considerada por empresas dos mais diferentes tamanhos e segmentos do mercado: “Data is the new oil”.

Na medida em que aumenta o reconhecimento da importância do uso de dados no mercado brasileiro, as empresas deparam-se com grandes desafios para tirar esses investimentos do papel e extrair o efetivo valor de uma cultura Data-driven. Desafios esses que transcendem questões técnicas – que inevitavelmente existem, uma vez que há necessidade de estruturar dentro das corporações uma arquitetura que consolide esse amplo volume de informações disponíveis – mas que também estão atrelados a falta de uma cultura organizacional, a formação de talentos com os skills necessários, uma mudança significativa na legislação – o que também impacta diretamente na estratégia dos negócios – entre uma série de outros fatores que demandam atenção das lideranças nesse processo de transformação.

Nesse contexto de mudança e aumento da relevância do tema em todos os segmentos, conversamos com Beatriz Bernardi, Chief Credit & Data Officer do Agibank, que gentilmente se disponibilizou para falar sobre o assunto, abordando alguns pontos fundamentais para as empresas quebrarem essa barreira e construírem uma cultura baseada no uso de dados.

Qual sua opinião sobre o uso dos dados na competitividade de nossas empresas?

“O uso de dados nos possibilita ter uma visão mais detalhada, isto é, um diagnóstico real e uma maior clareza no entendimento dos processos, comportamentos dos clientes, funcionários, concorrência, mercado, riscos, custos, entre outros.

Fazendo um bom uso dos dados, podemos nos diferenciar e criar uma melhor experiência, seja ela melhorando o atendimento, desenvolvendo produtos/soluções, criando ofertas relevantes para cada cliente, gerando novos negócios e aumentando sua vantagem competitiva.

Além disso, aumenta a capacidade preditiva da empresa, através de modelos de propensão que possibilitam uma maior assertividade e uma melhor eficiência em receita e custos.

Enfim, o uso de dados promove caminhos para as melhores tomadas de decisão, resultando em mais atratividade e rentabilidade para os negócios.”

O que significa uma empresa efetivamente Data-driven?

“Significa ser uma empresa que toma todas as suas decisões baseadas em dados, e que eles sejam efetivamente utilizados da forma correta. Significa ser uma empresa que se preocupa em fornecer a melhor estrutura de dados e que possua uma cultura disseminada entre todos. Um local onde as pessoas tenham capacidade e habilidade para extrair o valor do dado, seja através de especialistas, quando mais complexas, assim como no dia a dia.”

Quais os principais desafios das empresas na geração de valor com uso dos dados? E na construção de uma cultura Data-driven?

“O principal desafio é extrair o real valor dos dados.” Hoje em dia, recebemos muitas informações. Algumas empresas já estão construindo seus lakes – uma estrutura única para armazenamento dos dados – consolidados suas diversas bases, mas poucas ainda estão fazendo isto de forma estruturada e com a melhor utilização da informação. Ainda existe muita imprecisão em dados e isto pode distorcer qualquer análise.

Os desafios começam na construção da arquitetura de dados, para deixá-la confiável, atualizada, precisa, simples e segura. Desde o início do processo, a governança de dados é essencial. Depois de disponíveis, o segundo maior desafio é extrair a leitura correta de cenários e indicadores. Para a melhor análise e modelagem, é necessário montar hipóteses e fazer as perguntas corretas para, somente assim, obter as respostas corretas.”

É muito fácil se perder em muitos dados, portanto o mapeamento do objetivo precisa ser claro! É preciso ter metodologia e indicadores.

“Quanto a cultura, o primeiro desafio é se fazer entender por todos os membros da organização – por isso, acredito que o primeiro passo é mostrar a geração de valor do uso da informação, ou seja, mostrar exemplos. Neste caso é mais fácil ser disseminada.

Outro desafio é treinar, ensinar e manter isto no dia a dia das pessoas. Claro que existem diversos temas mais complexos, que demandam pessoas mais especialistas e, para isto, o ideal é contar com uma equipe técnica de apoio.

É preciso trabalhar a consciência da importância da informação de forma contínua, e consequentemente, da melhor tomada de decisão.”

Quais skills você busca na composição de uma equipe orientada para dados?

“Antes de qualquer skill técnico para ter uma equipe orientada a dados, é necessário ter pessoas curiosas, intrigadas, críticas, questionadoras e com diferentes opiniões. Um time capaz de formular as reais perguntas que precisam ser respondidas, ou seja, hipóteses que precisam ser testadas. Estas pessoas podem estar em qualquer estrutura da organização, responsáveis pelo uso dos dados nas tomadas de decisão.

Para as pessoas que vão, tecnicamente, achar as respostas nos dados, é necessário também ter uma alta capacidade cognitiva, quantitativa, raciocínio lógico apurado e capacidade técnica para base de dados – habilidades que podem ser adquiridas caso possuam os demais skills já citados.”

Qual sua avaliação sobre a formação de talentos para estes desafios?

“Hoje ainda é um recurso escasso nas instituições, justamente pela alta exigência de skills para este tema.

Existem muitas pessoas técnicas para dados, mas muitas vezes com pouca profundidade em negócios e questionamentos necessários para a tomada de decisão.

As empresas ainda estão formando tais profissionais. E, por isso, acredito muito na cultura Data-driven, pois com ela tal disseminação e a formação como um todo ficam cada vez mais disseminada. As trocas de experiências e a discussões são extremamente ricas na formação destes talentos.”

LGPD tem sido assunto recorrente no mundo todo. Quais as principais recomendações que você diria para empresários e profissionais que buscam se preparar para este novo contexto?

“Minha principal recomendação é estudar bem a própria lei, que aborda todos os requisitos legais de armazenamento de dados e governança, regras de transferências, assim como responsabilidade civil neste processo. Com a lei estudada, escolher um sponsor para liderar este tema na organização, com o objetivo claro de encontrar a melhor solução.”

Como instituições como o Caldeira podem contribuir com o ecossistema de inovação de nosso Estado?

“Acredito que as instituições, assim como o Caldeira, têm um papel muito forte de ser um catalizador de conhecimentos, ideias, provocações e conexões. Desde a criação de um ambiente, que será propício para a inovação, o pensar diferente, o estar “livre”, incentivando a disrupção, até a promoção de encontros, eventos e cursos.

Uma das coisas mais importantes de um melhor uso de dados são as trocas de conhecimento e informação e com certeza o Caldeira será essencial para isto.”